Por Alice Velho e Isabelle Ferreira (estagiária de jornalismo)
Fenômeno deve provocar extremos climáticos em diferentes regiões do Brasil; especialistas da ENSP alertam que impactos vão além das enchentes e secas e exigem preparação do SUS e dos serviços de saúde
As águas do Pacífico Equatorial voltaram a aquecer e o mundo acompanha a evolução de um novo episódio do El Niño. A Organização Meteorológica Mundial (OMM), o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e outros centros climáticos em todo o planeta vêm alertando que o fenômeno poderá influenciar significativamente o clima global em 2026, com grande potencial para se estender até 2027.
As projeções indicam aumento da probabilidade de eventos climáticos extremos em diferentes regiões do planeta, incluindo ondas de calor mais intensas, secas prolongadas, chuvas excepcionais e queimadas. No Brasil, os efeitos costumam variar conforme a região, com risco para o abastecimento de água, a produção de alimentos, a infraestrutura urbana e os serviços públicos, fazendo com que o debate não permaneça restrito à meteorologia, mas seja observado do ponto de vista da saúde pública, analisando a capacidade dos sistemas de saúde responderem a uma nova realidade climática.
"Estamos diante de uma nova realidade e o mundo que a gente conhecia até então, não existe mais", com essa afirmação, Carlos Machado - coordenador do Centro de Estudos para Emergências e Desastres em Saúde (Cepedes) da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) - faz um alerta sobre a necessidade de encarar a emergência climática como uma emergência sanitária.
Da meteorologia à saúde pública
Segundo Carlos Machado, o trabalho de movimentos científicos e sociais tem impacto direto na incorporação das mudanças climáticas às agendas de saúde pública. Esse cenário é reforçado por diversas revistas científicas internacionais que, desde 2023, defendem o reconhecimento da emergência climática como uma emergência sanitária.
"O El Niño deixou de ser visto apenas como um fenômeno climático. Ele passou a ser também uma questão de saúde pública, porque seus efeitos repercutem diretamente sobre a saúde das pessoas, sobre os serviços de saúde e sobre as condições sociais das populações", ressalta o pesquisador. Essa mudança de perspectiva ganha força com o reconhecimento internacional da emergência climática como um dos principais desafios sanitários do século XXI.
Um país, vários impactos
Embora o El Niño seja um único fenômeno climático, seus efeitos são bastante diferentes entre as regiões brasileiras. Os impactos variam entre uma maior frequência de chuvas intensas, enchentes e deslizamentos, aumento das temperaturas médias e episódios prolongados de calor, até secas, queimadas e problemas de abastecimento de água. Machado ressalta também que, em muitos casos, diferentes emergências ocorrem simultaneamente: "a possibilidade de eventos combinados ou em sequência amplia ainda mais os impactos sociais sobre as populações mais vulneráveis. No Rio Grande do Sul, por exemplo, antes das enchentes históricas de 2024, o estado já enfrentava uma epidemia de dengue e períodos sucessivos de seca, demonstrando como eventos climáticos e sanitários podem se sobrepor".
Essa heterogeneidade territorial é justamente o ponto de partida da análise de Eliane Lima, geógrafa e pesquisadora do Cepedes/ENSP/Fiocruz e do Laboratório de Geografia, Ambiente e Saúde (Lagas/UnB). Para ela, uma ação eficaz do SUS diante do El Niño depende do reconhecimento dessas assimetrias entre os territórios brasileiros e da capacidade de descentralizar o planejamento, já que um mesmo fenômeno produz efeitos distintos a depender da vulnerabilidade e da capacidade de resposta local.
A pesquisadora detalha como esse quadro se desenha por região. No Nordeste, a expectativa é de intensificação da seca, escassez hídrica e maior risco de incêndios, com potencial de afetar tanto os determinantes sociais quanto a própria rede de serviços de saúde. No Centro-Oeste, a combinação de seca, calor extremo e incêndios florestais tende a aumentar a demanda por atendimento, sobretudo por doenças respiratórias associadas à exposição a poluentes atmosféricos e à baixa umidade. Já no Sul e no Sudeste, os extremos de chuva, vento e calor exigem prontidão dos serviços de monitoramento, vigilância e da rede de urgência e emergência.
No Norte, o desafio central é a seca hidrológica: além de tornar o ambiente mais propício a incêndios, ela compromete a navegabilidade fluvial (principal meio de transporte da região) e pode isolar territórios inteiros, encarecendo ou até inviabilizando o acesso a determinadas áreas e comprometendo a logística de serviços de saúde.
Territorialização como estratégia de resiliência
Para Eliane Lima, a prestação de serviços de saúde raramente entra em colapso de forma isolada, o mais comum é que ela falhe quando sistemas de suporte básicos falham ao mesmo tempo no território: falta de água, de transporte, de energia, intermitência na comunicação. Em muitas localidades, lembra a pesquisadora, a telemedicina é fundamental para o atendimento de casos mais complexos e sua interrupção pode comprometer diretamente a continuidade do cuidado.
Segundo a geógrafa e pesquisadora, por esse motivo a territorialização não deve ser tratada apenas como uma diretriz organizacional, mas como uma estratégia de resiliência do próprio sistema de saúde, para evitar que a ausência ou a intermitência de serviços essenciais resulte em mortalidade excedente, maior adoecimento e incapacidade de resposta às demandas geradas pelo El Niño.
Emergências em cascata exigem governança adaptativa
Carlos Machado e Eliane Lima ressaltam que o cenário atual não deve ser lido como uma sucessão de eventos isolados, mas como um processo de efeitos cumulativos e impactos compostos. Diante disso, Eliane defende que a sobreposição de agravos — como seca hidrológica, dispersão de material particulado por incêndios e intensificação de doenças cardiorrespiratórias — exige o que ela chama de governança adaptativa, com atuação transversal entre os setores de saúde, assistência social, meio ambiente e recursos hídricos, entre outros. "O setor saúde sozinho não dá conta de atuar minimizando os impactos que o El Niño pode trazer para a vida das pessoas", resume.
Quando eventos extremos tendem a se tornar mais frequentes, a principal resposta passa a ser a preparação. Segundo Machado, o conhecimento científico acumulado nas últimas décadas permitiu o desenvolvimento de sistemas de alerta, protocolos para ondas de calor, planejamento antecipado e estratégias de adaptação dos serviços de saúde. "O principal aprendizado científico é que não estamos mais diante de eventos isolados. Precisamos preparar pessoas, comunidades e serviços de saúde para enfrentar eventos extremos que podem ocorrer simultaneamente ou em sequência."
Eliane Lima reforça essa urgência a partir de outro ângulo: como a previsibilidade do El Niño 2026-2027 já é um dado científico robusto, o planejamento precisa necessariamente preceder a instalação da crise. "Não há espaço para o improviso quando já conhecemos a magnitude do que está por vir", diz. Para a pesquisadora, o mais urgente agora é converter essas evidências em mobilização real de recursos e organização dos serviços - da vigilância à atenção primária -, fortalecendo a articulação entre as esferas federal, estadual e municipal para reduzir incertezas operacionais antes que os eventos se intensifiquem.
Um ponto que a geógrafa destaca como imprescindível é a participação social. Para ela, as comunidades não devem ser vistas apenas como grupos vulneráveis a serem informados sobre estratégias já definidas, mas como parceiras ativas do processo de adaptação, por serem detentoras de um conhecimento territorial que os dados e as análises de risco, sozinhos, não captam.
Um exemplo recente ilustra esse argumento: em nota técnica publicada em 30 de julho, o Observatório de Clima e Saúde (Icict/Fiocruz) e a Redes da Maré mostraram como o monitoramento comunitário complementou os dados oficiais durante o episódio de ventos intensos que atingiu o Rio de Janeiro em 29 de julho, registrando impactos como quedas de energia e destelhamentos que raramente aparecem nas bases institucionais.
Confira aqui a nota na íntegra.
Fiocruz fortalece apoio ao SUS diante dos impactos climáticos
A Fiocruz sistematizou um conjunto de iniciativas técnico-científicas voltadas a apoiar o SUS na prevenção, vigilância, resposta e adaptação aos possíveis impactos do El Niño entre 2026 e 2027. O documento reúne, entre outras frentes, a Nota Técnica elaborada pelo Observatório de Clima e Saúde, do Laboratório de Informação em Saúde (LIS/Icict/Fiocruz), em parceria com a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM); o fortalecimento das Salas de Situação em Saúde a partir de estruturas já existentes, como os Centros de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (Cievs); a formação de profissionais por meio de seminários e cursos voltados aos impactos climáticos na saúde; e a consolidação de um mapeamento da produção científica da instituição sobre clima e saúde.
A proposta também destaca ferramentas do Observatório de Clima e Saúde que podem subsidiar ações de vigilância, planejamento e tomada de decisão durante eventos climáticos extremos, como o AlertaAr Saúde, o FluxSUS e o Sistema Saúde do Semiárido.
Acesse o documento: Contribuição da Fiocruz para as Ações de Enfrentamento aos Possíveis Impactos do El Niño (2026–2027)
Um novo normal exige novas respostas
Para Carlos Machado, a principal lição dos eventos climáticos recentes é que o mundo mudou de fase: os eventos extremos tornaram-se mais frequentes, intensos, duradouros e abrangentes. Por isso, defende o pesquisador, a emergência climática precisa deixar de ser tratada como exceção e se tornar uma agenda permanente da saúde pública.
Eliane Lima ressalta também que o maior legado do esforço atual, não será a resposta ao El Niño em curso, mas o fortalecimento permanente das capacidades de antecipação e resiliência do Estado, já que o cenário de risco tende a se ampliar à medida que vulnerabilidades e ameaças se intensificam. "Outros El Niños virão", resume.
Diante disso, o alerta dos dois pesquisadores é um só: reagir aos desastres não basta mais. É preciso fortalecer políticas de adaptação, ampliar a vigilância em saúde e reduzir desigualdades sociais antes que a próxima emergência chegue.