Por Alice Velho e Tatiane Vargas
Mesa reuniu representantes da academia, de organizações de catadoras e de pescadoras para discutir trabalho, saúde e a importância da participação dos territórios na produção do conhecimento
A relação entre emergências climáticas, desigualdades socioambientais, condições de trabalho e saúde das mulheres esteve no centro da mesa “Colapso climático e desigualdades socioambientais: impactos nos territórios, no trabalho e na vida das mulheres”, realizada em 3 de setembro, como parte da programação pelos 72 anos da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz).

A atividade foi proposta com base em dois projetos desenvolvidos pela ENSP/Fiocruz em parceria com a Secretaria Nacional de Autonomia Econômica e Política de Cuidados do Ministério das Mulheres. As iniciativas investigam as condições de trabalho e os impactos socioambientais e climáticos vivenciados por mulheres catadoras, pescadoras, marisqueiras e aquicultoras. Antes de iniciar o debate, a exibição do vídeo “Às Margens do Clima: o colapso climático sobre os corpos e territórios das pescadoras e catadoras” apresentou parte das questões que são foco dos projetos, trazendo visibilidade a essas experiências.
Conhecimento construído com os territórios
Na abertura, o diretor da ENSP, Marco Menezes, destacou que um dos desafios colocados para a academia é produzir conhecimento e comunicação não apenas sobre as populações e seus territórios, mas com quem vivencia essas realidades.
Ao comentar o vídeo “Às Margens do Clima”, exibido no início da atividade, Marco relacionou a comunicação sobre a emergência climática a temas como a crise hídrica e as condições de vida das populações afetadas. Para ele, a construção do projeto e a própria composição da mesa representam um desafio para a academia: reconhecer e valorizar os saberes produzidos nos territórios.
“Um grande desafio da academia é fazer com quem está nos territórios”, afirmou, defendendo a valorização do “saber popular, do conhecimento ancestral” na produção científica.

Marco também chamou atenção para a necessidade de ampliar o debate sobre os impactos das mudanças climáticas no mundo do trabalho. Segundo ele, as transformações ambientais atingem as condições de trabalho e precisam ser incorporadas às discussões sobre saúde e direitos das trabalhadoras e dos trabalhadores.
Ao finalizar sua fala, o diretor ressaltou a importância da educação popular para aproximar a academia das realidades vivenciadas nos territórios. “A educação popular é justamente poder trazer as pessoas, os territórios, quem faz”, afirmou, defendendo uma academia comprometida com a construção de uma sociedade socioambientalmente mais justa.
Projetos construídos a partir das demandas das mulheres
Coordenadora dos projetos e da mesa, a pesquisadora da ENSP Maria Juliana Moura Corrêa ressaltou que as duas iniciativas foram construídas a partir das demandas apresentadas pelas próprias mulheres e de suas realidades de trabalho. “Nós construímos os dois projetos a partir da demanda das mulheres, da realidade de trabalho”, afirmou.
Maria Juliana destacou a presença, na mesa, de mulheres que ocupam espaços de liderança em organizações e movimentos sociais. Para ela, reconhecer essas trajetórias é importante para superar a invisibilidade que ainda marca tanto o trabalho das catadoras quanto o das mulheres que vivem e trabalham nos territórios das águas.

A pesquisadora chamou atenção para a contribuição desses grupos diante da crise climática. No caso das catadoras, ressaltou que o trabalho desenvolvido por elas vai muito além da coleta de resíduos, envolvendo etapas fundamentais para a gestão dos materiais recicláveis e para a redução de impactos ambientais. Entre as pescadoras, destacou a relação direta entre as condições ambientais dos rios e águas e a saúde, o trabalho e a alimentação das comunidades.
Os projetos acompanham ainda fenômenos como ilhas de calor, contaminação das águas, enchentes e secas, além da análise das manifestações do racismo ambiental. Para Maria Juliana, colocar essas experiências em diálogo com a academia é também uma forma de qualificar a formação de profissionais da saúde e a construção das políticas públicas. “Os saberes populares ou saberes ancestrais” precisam estar “num diálogo com a academia”, defendeu.
Catadoras denunciam precarização e exposição aos efeitos do clima
A dimensão concreta dessas desigualdades foi apresentada por Lindaci Maria Gonçalves, diretora-presidente da COOCARES e representante do Fórum para Promoção da Autonomia e Inclusão Socioeconômica de Mulheres Catadoras de Materiais Recicláveis. Com uma trajetória de cerca de 26 anos no trabalho com resíduos sólidos, Lindaci relatou ter trabalhado durante dez anos dentro de um lixão, experiência que marcou sua atuação na defesa dos direitos da categoria.
Segundo ela, a desigualdade social e a emergência climática fazem parte de uma mesma realidade vivenciada diariamente pelas catadoras e catadores. Lindaci afirmou que o Brasil possui entre 800 mil e 1 milhão de trabalhadores da categoria e destacou a predominância feminina e negra nesse universo. “76% dos catadores são mulheres. Mulheres negras, mulheres de periferia”, afirmou.

Para Lindaci, a principal reivindicação da categoria é o reconhecimento do trabalho e a garantia de condições dignas para exercê-lo. Ela criticou a falta de estrutura para as trabalhadoras, muitas vezes obrigadas a realizar a coleta nas ruas e sem espaços adequados para desenvolver as demais etapas do trabalho.
A dirigente também questionou processos de fechamento de lixões que, segundo ela, não consideram adequadamente a situação das pessoas que dependem desses espaços para sobreviver. Na avaliação de Lindaci, as políticas públicas precisam considerar a realidade dos trabalhadores antes de promover mudanças que afetem diretamente seus meios de subsistência.
A relação entre trabalho e emergência climática apareceu de forma ainda mais direta quando Lindaci descreveu a exposição cotidiana das catadoras às condições ambientais. “Eu não vejo uma categoria que sente na pele mais essa mudança do que o catador que fica rua acima, rua abaixo”, afirmou.
Ela destacou que o trabalho envolve diferentes etapas, da educação ambiental e coleta seletiva ao transporte, à triagem e à destinação dos materiais. Segundo Lindaci, apesar da contribuição ambiental da categoria, as trabalhadoras permanecem expostas a chuva, sol e outras condições adversas, inclusive durante o trabalho noturno.
A precariedade também se manifesta, segundo seu relato, na ausência de direitos trabalhistas. “A gente não tem férias, a gente não tem licença-maternidade, a gente não tem o décimo terceiro”, afirmou.
Ao abordar sua própria trajetória, Lindaci relatou ainda uma experiência de aborto que ela associa ao período em que trabalhava no lixão, relacionando o episódio ao esforço físico e às condições de exposição daquele trabalho. O relato foi apresentado por ela como parte das dificuldades enfrentadas pelas mulheres da categoria.
Para a dirigente, a transformação dessa realidade exige articulação entre as diferentes esferas de governo e políticas capazes de garantir estrutura, equipamentos e condições adequadas de trabalho. “A gente precisa de urgência para mudar a nossa realidade”, defendeu.
"Não existe um estudo de nós sem nós”
A necessidade de que as populações diretamente afetadas participem da produção do conhecimento também esteve no centro da fala da pescadora Diva Helena Nogueira Miyazak, presidente da Confederação dos Pescadores de São Paulo e representante das Guardiãs de Conhecimentos e Saberes dos Povos das Águas.
Diva explicou que as guardiãs são indicadas por entidades que integram o movimento e posteriormente eleitas pelo fórum. Para ela, esse papel é estratégico por estabelecer uma ponte entre academia, governo e as comunidades. “Não existe um estudo de nós sem nós”, afirmou. Para ela, a pesquisa é necessária, mas precisa partir também das questões vivenciadas pelas comunidades e considerar os impactos que seus resultados poderão produzir. “A gente precisa saber aonde essa pesquisa, de fato, vai chegar. O que que ela vai trazer de benefício?”, questionou.
Representante das comunidades que vivem da pesca em águas doces, Diva trouxe para o debate a situação dos rios do estado de São Paulo. Segundo ela, apesar da imagem de desenvolvimento associada ao estado, os rios sofrem com diferentes formas de degradação que tem consequências diretas para as mulheres que pescam e trabalham nas águas, como o lançamento de esgoto, o uso de agrotóxicos e a retirada da vegetação estão entre os fatores que interferem na qualidade dos rios, além das mudanças climáticas e seus impactos sobre as águas, colocando em risco a saúde e segurança alimentar de quem depende desses ambientes para trabalhar e obter alimento.
Para ela, a construção de respostas exige que o conhecimento produzido pelas comunidades seja colocado em diálogo com a pesquisa acadêmica e com a ação do poder público. “A gente só vai conseguir chegar em algum denominador comum se a gente fizer a experiência, o conhecimento e o governo para aplicar as políticas públicas”, concluiu.
Essa perspectiva também foi reforçada por Luena Maria Ferreira dos Santos, pescadora da etnia Pataxó e diretora da Associação dos Pescadores Indígenas Pataxós de Coroa Vermelha (APIP). Representando pescadores e pescadoras do extremo sul baiano, Luena trouxe para o debate as experiências vivenciadas pelos povos indígenas e pelas comunidades tradicionais.
Ao falar sobre a realidade de sua comunidade, ela chamou atenção para a degradação e a contaminação dos rios e mares, as dificuldades de acesso à saúde, o preconceito e as ameaças aos territórios indígenas. Para ela, o enfrentamento dessas desigualdades exige que a academia e os pesquisadores se aproximem efetivamente das comunidades e da relação de respeito e conhecimento que as comunidades tradicionais estabelecem com a natureza, expressa na observação dos ciclos das águas, dos ventos e das marés e transmitida entre gerações. “A gente não tem essas leituras todas, mas a gente tem a sabedoria”, afirmou, defendendo pesquisas construídas a partir da vivência nos territórios e em diálogo com quem enfrenta essas realidades cotidianamente.
Escuta, diálogo e participação popular
A importância de reconhecer e escutar as vozes dos territórios também orientou a fala de Maria Rocineide Ferreira da Silva, a Neidinha, Coordenadora-geral de Educação Popular em Saúde do Departamento de Gestão Interfederativa e Participativa (DGIP), da Secretaria-Executiva do Ministério da Saúde. Ao refletir sobre a composição da mesa e os diferentes lugares de onde partiam as participantes, ela destacou a potência da construção coletiva e da educação popular como caminhos para pensar políticas públicas e produzir conhecimento.
Para Neidinha, conhecer os números, identificar as populações e compreender onde estão é fundamental, mas não suficiente. É preciso também perguntar como essas pessoas vivem e, muitas vezes, como sobrevivem. “Os números não dão conta de revelar quem são essas pessoas para nós”, observou.
Ao retomar a fala de Diva — “não existe um estudo de nós sem nós” —, Neidinha chamou atenção para o desafio colocado à academia e às instituições de aprender com as vozes que historicamente foram pouco escutadas. Para ela, a questão não é se essas populações têm algo a dizer, mas quem está disposto a ouvi-las.
“Se tem uma coisa que tem faltado dentro das instituições é povo. Às vezes falta povo dentro da gente”, afirmou.
As falas reunidas na mesa apontam para o mesmo ponto: não há resposta possível para o colapso climático que não passe por quem vive ele na pele, todos os dias. Entre o lixão de Lindaci, os rios de Diva e Luena e a escuta que Neidinha cobra das instituições, fica clara a necessidade da construção conjunta de respostas entre comunidades, movimentos sociais, academia e poder público.
+ Conheça os projetos da ENSP que deram origem ao debate
Mulheres Pescadoras de Autonomia, Igualdade e Sustentabilidade Ambiental: articula ciência, saberes tradicionais e justiça socioambiental para investigar os efeitos da contaminação por mercúrio e metais pesados, da exposição a agrotóxicos, da crise hídrica, das mudanças climáticas e dos conflitos territoriais sobre comunidades pesqueiras artesanais.
Racismo Ambiental e Climático: Análise das Condições de Trabalho e Monitoramento das Ilhas de Calor e Frio em Territórios de Catadoras de Materiais Recicláveis no Paraná: desenvolve análises de geoprocessamento e cartografia social participativa em municípios paranaenses. O trabalho contribui para a construção do Indicador Socioterritorial de Racismo Ambiental (ISRA) e para a compreensão dos impactos das mudanças climáticas nos territórios das catadoras.