ENSP celebra 72 anos com vozes das favelas e dos povos indígenas

Abertura do evento

Por Guilherme Oliveira e Ana Claúdia Guimarães

A crise climática alcança toda a sociedade, mas não oferece a todos as mesmas condições de proteção. “O naufrágio é até coletivo, mas o afogamento é muito seletivo”, afirmou Preto Zezé, da Central Única das Favelas (CUFA), nesta quinta-feira. Ele participou, ao lado de Diádiney Helena de Almeida, primeira pesquisadora indígena da Fiocruz, da mesa “Emergências Climáticas e Desigualdades”, realizada em comemoração aos 72 anos da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz). O mediador foi o vice-diretor de Ensino da ENSP, Gideon Borges. 

Os dois convidados partiram das experiências de favelas e territórios indígenas para mostrar que enchentes, secas, incêndios e alterações nos ciclos das águas agravam desigualdades antigas. Também defenderam que as populações mais expostas aos desastres deixem de ser tratadas apenas como destinatárias de políticas públicas e participem da formulação das respostas. 

Antes de entrar no tema, Preto Zezé celebrou a trajetória da ENSP e a permanência de uma instituição pública dedicada à ciência. Segundo ele, a aproximação entre a universidade e os moradores das favelas ajuda a mudar tanto a produção acadêmica quanto o trabalho realizado nos territórios: 

“É difícil você ter um centro de produção de conhecimento, um centro científico, um centro de estudos, e que seja público no Brasil”.  

Para Zezé, a entrada de estudantes das favelas nas universidades levou outros olhares para espaços que, durante muito tempo, permaneceram distantes da realidade dessas populações. Ao falar das emergências climáticas, ele comparou, por exemplo,  a sociedade a um grande naufrágio. Enquanto algumas pessoas dispõem de barcos, lanchas, jet skis, informações e meios de prever os riscos, outras não têm sequer uma boia: 

“Essa parte me preocupa, porque muitas vezes o discurso sobre mudanças climáticas é feito por grupos que não vivem os impactos dessas mudanças. Precisamos trazer de volta o protagonismo das pessoas que vivem os impactos das emergências climáticas para dentro das decisões”. 

Preto Zezé recorreu às enchentes no Rio Grande do Sul para descrever a dimensão do problema. Ele contou que, durante uma ação de socorro, encontrou prédios da polícia e dos bombeiros quase cobertos pela água. Um dos agentes que acompanhavam o grupo chorou ao mostrar que a própria casa também estava submersa. 

“As pessoas que a gente imagina que poderiam nos salvar também estavam naufragando com a gente. As equipes tinham barcos com poucos lugares e precisavam escolher quem seria retirado primeiro. Isso impõe situações extremamente dramáticas, que não vão caber nos acordos eleitorais nem nas conveniências partidárias.”

Para o dirigente da Cufa, o enfrentamento da crise exige territórios organizados, participação popular e orçamento. Ele criticou conselhos e espaços de representação sem poder para interferir nas decisões e afirmou que favelas, povos indígenas, quilombolas e comunidades ribeirinhas precisam ocupar lugares onde políticas e recursos são definidos. 

Primeira pesquisadora indígena da Fiocruz, Diádiney Helena de Almeida ingressou na instituição neste ano. Indígena do povo Pataxó, é historiadora formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestre e doutora em História das Ciências e da Saúde pela Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz). Na ENSP, integra o Departamento de Endemias Samuel Pessoa e o coletivo Vozes Indígenas na Produção do Conhecimento. 

Diádiney afirmou que falar de saúde indígena significa tratar de território, luta pela vida, justiça, memória e reparação histórica. Segundo ela, não é possível compreender as condições de saúde desses povos sem considerar as violências que atingiram seus corpos, territórios, formas de organização e modos de existência: 

“As emergências climáticas não constituem uma ameaça externa ou dissociada dessas dimensões. Elas aprofundam processos históricos de expropriação, degradação ambiental e desigualdade, produzindo novos riscos e agravando vulnerabilidades já existentes nos territórios indígenas”. 

Secas, enchentes, incêndios, perda de alimentos e mudanças nos ciclos das águas, explicou, não afetam apenas as condições materiais de sobrevivência. Também comprometem práticas, saberes, relações territoriais e formas de vida construídas ao longo de gerações: 

“O corpo indígena é continuidade do território, e sua saúde está vinculada à integridade das águas, das florestas, das montanhas, dos animais e de todos os ciclos que constituem e sustentam a vida”. 

A pesquisadora também relacionou a devastação ambiental às estruturas econômicas herdadas do colonialismo, da escravidão, do latifúndio e da monocultura. Ao longo da história, afirmou, conhecimentos indígenas sobre plantas, curas e territórios foram utilizados, mas seus autores tiveram a capacidade intelectual negada. Esse processo ajudou a retirar dos povos indígenas o reconhecimento como produtores de ciência. 

Para Diádiney, reconhecer esses conhecimentos não significa tratá-los como folclore, exotismo ou uma relação sentimental com a natureza. São sistemas complexos de observação, experimentação, memória, manejo e cuidado, transmitidos entre gerações e formados pela convivência contínua com os territórios. 

Ela também chamou atenção para projetos de energia classificados como verdes, mas implantados sem o consentimento das comunidades afetadas. Medidas desse tipo, advertiu, podem deslocar populações e repetir as mesmas práticas que contribuíram para a crise: 

“As ações precisam ser pensadas e implementadas com os povos indígenas no centro das decisões. Caso contrário, essas medidas vão correr o risco de reproduzir justamente os mesmos sistemas extrativistas e excludentes que contribuíram para produzir a crise climática que estamos tentando enfrentar”. 

Ao encerrar a participação, Diádiney defendeu uma mudança na forma como governos, instituições e pesquisadores se relacionam com essas populações: 

“Mais do que incluir os povos indígenas em políticas que já foram formuladas, trata-se de reconhecer o seu direito de participar como protagonistas das decisões e de definir, a partir de suas próprias ciências e territórios, quais caminhos podem ser construídos para enfrentar a crise climática.” 

 O debate foi aberto por Mário Moreira, presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz); Marco Menezes, diretor da ENSP; Paulo Garrido, presidente da Asfoc-SN; e Liliam Silva, representante dos estudantes da escola.  
 
Mesa de abertura 
 
A programação do aniversário incluiu uma abertura institucional, com participação do diretor da ENSP, Marco Menezes; do presidente do Sindicato dos Servidores de Ciência, Tecnologia, Produção e Inovação em Saúde Pública (Asfoc-SN), Paulo Garrido; da representante discente, Lílian Silva e da vice-presidente de Educação, Informação e Comunicação da Fiocruz, Marly Marques da Cruz. Ao meio-dia, foi realizado o tradicional corte do bolo de aniversário, no hall dos elevadores da escola. 

 



Marco Menezes destacou a importância da atuação da ENSP como instituição pública e estratégica do Estado brasileiro e ressaltou como as mudanças climáticas já vêm prejudicando, sobretudo, as populações mais vulneráveis: 

“O acesso a serviços é desigual entre regiões e territórios. As mudanças climáticas já afetam a vida nas cidades, nos campos, nas florestas, nas águas, nas periferias, nas favelas.” 

Além disso, Marco afirmou que priorizar a saúde exige um olhar que transcenda hospitais e medicamentos, implicando reconhecer que as condições de saúde são produzidas a partir das relações entre políticas públicas, formas de organização da vida social, produção de conhecimento, trabalho e ambiente. 

Ao final de sua fala, o diretor da ENSP leu um documento público redigido pela Fiocruz, no qual a instituição reafirma que as escolhas realizadas no presente produzirão efeitos duradouros sobre as condições de vida da população. O texto destaca que a saúde deve orientar as decisões públicas e integrar um projeto de país mais justo, democrático e comprometido com a dignidade de todas as pessoas, além de defender o fortalecimento do SUS, a redução das desigualdades, a valorização da ciência e a preparação para enfrentar a emergência climática e a crise hídrica vivenciada atualmente. 

Marly Marques da Cruz, vice-presidente de Educação, Informação e Comunicação da Fiocruz, destacou a importância da ENSP na formação de profissionais para o SUS e na atuação diante dos principais desafios da saúde coletiva. Ao lembrar a trajetória de Sérgio Arouca, que dá nome à Escola, ressaltou o papel histórico da instituição na formação de lideranças e na participação nos grandes debates da saúde pública. 

 



Segundo Marly, a formação promovida pela ENSP é marcada pelo compromisso social e pelo enfrentamento das desigualdades étnico-raciais, de gênero e territoriais. Ela também destacou iniciativas formativas voltadas a lideranças de periferias, conselheiros de saúde e diferentes territórios e grupos sociais, como exemplos da busca da Escola por novas formas de inclusão. 

A vice-presidente ressaltou ainda a atuação da ENSP na defesa da democracia, das políticas públicas e da ciência, além de destacar sua participação em iniciativas de enfrentamento à violência contra as mulheres, na política de ciência aberta e na produção científica, especialmente por meio dos Cadernos de Saúde Pública. 

Ao comentar o aniversário de 72 anos, Marly afirmou que a celebração também representa um momento de reflexão sobre os desafios atuais. Para ela, a escolha das emergências climáticas e das desigualdades como tema da programação demonstra a capacidade da Escola de permanecer conectada às questões que atravessam a sociedade brasileira e o cenário internacional. 

“Eu estou dando esses destaques para dizer o quanto essa escola é uma potência. É uma escola de referência, não só na formação de sanitaristas, mas na defesa da democracia e no fortalecimento das políticas públicas, não só de saúde, mas também de tantas outras políticas públicas.” 

 



Lilian Silva, representante dos discentes na mesa institucional, destacou que a ENSP foi a responsável por ser a casa onde foi materializado o registro do sanitarista e falou sobre como é fazer parte da escola: 

“Ser parte dessa instituição que guarda uma história tão bonita e tão protagonista para a saúde pública é a prova viva da nossa valorização, não só como profissionais, mas como os alunos que estão sendo formados nessa escola. E isso ganha uma urgência muito maior quando nós olhamos para o tema do aniversário, que, sempre tão pertinente, sempre tão atual, é sempre valorizado dentro das nossas aulas, nossas salas, nossos corredores.”