Seminário apresentou resultados de pesquisa coordenada pela ENSP e discutiu articulação de instituições para incorporar o rastreamento radiológico à rotina prisional

Os resultados da pesquisa que avaliou, durante dois anos, o impacto do rastreamento radiológico de massa para detecção precoce da tuberculose em unidades prisionais foram apresentados no seminário do projeto CNPq/MS Prisões TB Zero, realizado pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz), na última semana.
Coordenada pela pesquisadora Alexandra Sánchez, do Departamento de Endemias da ENSP e líder do Grupo de Pesquisa 'Saúde nas Prisões', a pesquisa é financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em parceria com o Ministério da Saúde, e integra o projeto “Prisões TB Zero”.
Mais do que apresentar os resultados do estudo, o encontro colocou em discussão a possibilidade de incorporar o rastreamento radiológico de massa à rotina dos serviços de saúde prisional, a partir de planejamento conjunto e da atuação coordenada entre diferentes instituições. A proposta inicial é ampliar essa estratégia para todo o Complexo de Gericinó, no Rio de Janeiro, reunindo saúde, administração penitenciária, Justiça, pesquisa e demais parceiros.

O seminário também integrou o lançamento, no Rio de Janeiro, do 'Pena Justa Cuidar', estratégia de saúde do programa Pena Justa, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). A Fiocruz é parceira da iniciativa, que será desenvolvida inicialmente como experiência-piloto para posterior ampliação em a escala nacional. Entre os principais focos da ação no estado estão a saúde da população privada de liberdade, o enfrentamento da tuberculose e a saúde dos policiais penais.
A programação reuniu pesquisadores, profissionais de saúde, gestores, representantes do sistema de Justiça e da administração penitenciária para discutir os desafios do controle da tuberculose nas prisões e as possibilidades abertas pelo uso de novas tecnologias.
Articulação institucional para enfrentar um problema de saúde pública
Na abertura, a vice-diretora da ENSP, Fátima Rocha, representando o diretor Marco Menezes, destacou a importância da atuação conjunta das instituições e o compromisso da Escola com a proteção da vida, os direitos humanos e os princípios do SUS. Ela também ressaltou o papel do Centro de Referência Professor Hélio Fraga (CRPHF), unidade da ENSP que integra a rede de referência para o cuidado da tuberculose resistente e abriga o Laboratório Nacional de Referência para Tuberculose do Ministério da Saúde.

A necessidade de integrar diferentes áreas também esteve presente nas falas dos demais participantes da mesa. Vitória Veloso, da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, lembrou que a privação de liberdade não retira o direito à saúde. “Essas pessoas estão privadas de liberdade, mas elas não estão privadas dos seus direitos da saúde”, afirmou.
Representando o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, Márcia Correia Holanda, do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário (GMF-RJ), relacionou o debate ao Pena Justa e destacou a necessidade de institucionalizar políticas públicas para que elas tenham continuidade.
Já o subsecretário da Secretaria de Estado de Administração Penitenciária do Rio de Janeiro, Vágner Ferreira de Oliveira, ressaltou que o enfrentamento da tuberculose depende da participação de diferentes atores. “A nossa principal intenção é o cuidado”, afirmou.

A coordenadora do Programa de Tuberculose da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro, Marnelli Martins, sintetizou a importância da cooperação entre as instituições: “Sozinhos ninguém consegue.”
Pena Justa Cuidar: saúde para além dos muros
A relação entre saúde prisional, SUS e Justiça foi aprofundada por Clarissa Guedes, do CNJ, que apresentou o Pena Justa Cuidar. A estratégia foi criada no âmbito do Pena Justa para ampliar e qualificar o cuidado em saúde ao longo de todo o ciclo penal, incluindo a articulação entre os serviços de saúde das unidades prisionais e a rede territorial do SUS.
O Rio de Janeiro foi escolhido para a experiência-piloto da estratégia. A proposta envolve a construção de diagnósticos, fluxos e protocolos e a articulação entre diferentes instituições. A tuberculose está entre as frentes prioritárias do trabalho no estado, ao lado de ações voltadas à saúde dos profissionais do sistema prisional e à saúde das mulheres.
Um dos princípios apresentados por Clarissa sintetizou a perspectiva do programa: “O cuidado começa onde a pessoa está e continua para além dos muros.”
A estratégia também amplia a compreensão da saúde no sistema prisional para além da assistência individual, considerando aspectos relacionados ao ambiente, à prevenção, à vigilância, à formação dos profissionais e à continuidade do cuidado após a saída da prisão.
Tuberculose: diagnóstico precoce é desafio central
Na sequência, Yuri Bitencourt, do Ministério da Saúde, apresentou um panorama da Política Nacional de Controle da Tuberculose nas prisões. Segundo os dados apresentados, em 2025 foram registrados 6.809 casos de tuberculose entre pessoas privadas de liberdade, com incidência de 964 casos por 100 mil habitantes. A população privada de liberdade respondeu por 7,9% dos novos casos de tuberculose registrados no país naquele ano e apresentou risco de adoecimento cerca de 24 vezes maior que o da população geral.
Superlotação, ventilação inadequada, mobilidade entre unidades e diferentes situações de vulnerabilidade social contribuem para o cenário. Yuri destacou avanços na vigilância, no diagnóstico, no cuidado e na prevenção, mas apontou como desafios a identificação precoce dos casos, a investigação de contatos, o tratamento preventivo e a continuidade do cuidado diante das transferências.
É nesse contexto que os resultados do 'Prisões TB Zero' foram apresentados por Alexandra Sánchez.
Pesquisa avalia rastreamento radiológico e uso de inteligência artificial
Coordenadora da pesquisa e líder do Grupo de Pesquisa “Saúde nas Prisões”, Alexandra Sánchez apresentou resultados de dois anos de acompanhamento em três unidades prisionais. Ao todo, foram examinadas 8.603 pessoas, incluindo, em uma unidade prisional, três ciclos de rastreamento radiológico sistemáticos anuais, além do exame sistemático de pessoas que ingressavam nas unidades. Em duas outras unidades prisionais, o estudo foi limitado a um único rastreamento.
A prevalência média de tuberculose observada nas três unidades foi de 12,7%, segundo os dados apresentados. Um dos achados destacados pela pesquisadora foi o baixo desempenho da busca baseada apenas em sintomas para identificar os casos. Apenas 13% das pessoas diagnosticadas no estudo referiam tosse, enquanto muitas não se percebiam doentes.
“Se queremos controlar a tuberculose, precisamos utilizar as ferramentas mais modernas que existem”, afirmou Alexandra, ao defender a combinação entre rastreamento radiológico sistemático anual, independentemente da existência de sintomas, com interpretação automatizada das radiografias de tórax por IA, e teste rápido molecular.

Na unidade acompanhada ao longo de dois anos, a prevalência dos casos detectados apresentou redução de 59% em 24 meses. Para a pesquisadora, o resultado aponta para a possibilidade de redução da transmissão no ambiente prisional quando a busca ativa é realizada anualmente de forma sistemática, associada a busca entre ingressantes e ao tratamento dos casos identificados.
A pesquisa também avaliou o uso de inteligência artificial na análise das radiografias. A ferramenta permite selecionar imagens sugestivas de tuberculose para a realização de exames complementares, reduzindo o número de pessoas que precisam ser encaminhadas para testes laboratoriais.
Alexandra ressaltou, entretanto, que a inteligência artificial não substitui completamente a avaliação por profissionais. A pesquisa identificou situações em que a ferramenta não reconheceu casos posteriormente confirmados, reforçando a necessidade de capacitação das equipes e de uma avaliação que combine a tecnologia com a análise clínica e radiológica.
Outro aprendizado destacado foi a importância de manter o arquivo das radiografias. A comparação entre exames realizados em diferentes momentos permite identificar alterações novas e diferenciar lesões relacionadas a episódios anteriores de tuberculose de sinais de doença ativa. Isso é especialmente importante dado a alta frequência de história de tuberculose em pessoas presas, observado na pesquisa.
Para a pesquisadora, a estratégia precisa estar associada a outras medidas de enfrentamento da transmissão, especialmente aquelas relacionadas às condições das unidades prisionais. Diminuição da superlotação, melhora da ventilação e da iluminação natural das celas que também precisam fazer parte da resposta.
A experiência, segundo Alexandra, demonstrou ainda que a ampliação da estratégia depende da construção de parcerias. “Nenhuma instituição é consegue fazer isso sozinha”, afirmou.
Da pesquisa à rotina da atenção primária prisional
A apresentação de Veridiana Reis, psicóloga da equipe de Atenção Primária Prisional da SMS-RJ, mostrou como a estratégia foi incorporada ao cotidiano da Unidade Pedro Melo, de regime fechado, que reúne aproximadamente 1.500 pessoas privadas de liberdade.
Desde 2024, a unidade passou por três ciclos de rastreamento. O fluxo incluía orientação inicial, avaliação de peso, altura e pressão, entrevista com profissionais de saúde, atualização dos prontuários, testes rápidos, radiografia e, quando havia alteração sugestiva de tuberculose, coleta supervisionada de escarro.
Para Veridiana, a experiência mostrou que a incorporação da estratégia é possível, mas exige articulação e adaptação. “É possível, não é necessariamente fácil”, afirmou.
Entre os desafios estiveram as mudanças de direção da unidade, a substituição de profissionais da equipe, a necessidade de conciliar o projeto com as demais demandas da atenção primária e o acompanhamento das pessoas transferidas para outras unidades.
A equipe também precisou organizar o acompanhamento de consultas, exames, dispensação de medicamentos e demais procedimentos relacionados ao tratamento da tuberculose. Em 2024, por ocasião do rastreamento radiológico inicial, a unidade chegou a ter mais de 220 pessoas simultaneamente em tratamento para tuberculose, segundo os dados apresentados.
Ao longo do projeto, a equipe identificou mudanças na própria forma de compreender e organizar o cuidado. A tuberculose deixou de ser percebida como uma questão restrita à medicina e à enfermagem e passou a ser entendida como uma responsabilidade coletiva da equipe de saúde.
Segundo Veridiana, o rastreamento também ampliou o olhar para outras necessidades de saúde, já que o contato sistemático com a população possibilitou atualizar prontuários, identificar demandas e direcionar o acompanhamento de diferentes condições.
De acordo com os dados apresentados, em 2024, 285 pessoas iniciaram tratamento para tuberculose na unidade, com percentual de cura de 74,04%. Em 2025, a taxa chegou a 76,5% e, até agosto de 2026, alcançava 83,61%. As transferências e saídas da unidade interferem nos percentuais de encerramento do tratamento no próprio local, mas a equipe mantém o acompanhamento necessário para favorecer a continuidade do cuidado.
Educação em saúde por meio do jogo
A incorporação de novas estratégias também alcançou a educação em saúde. O painel apresentou o Campeonato da Cura, desenvolvido pela equipe de Gamificação e Jogos Sérios do Pólen/ENSP a partir de uma demanda apresentada por Alexandra Sánchez.
Murilo Barbosa Sales, Karen Silveira e Thayla dos Santos apresentaram o processo de desenvolvimento da ferramenta adaptada à população prisional, que busca transformar conteúdos sobre tuberculose em uma experiência de participação, reflexão e tomada de decisão.
Segundo Murilo, o desafio era encontrar uma forma de estabelecer um diálogo sobre informações de saúde em um contexto marcado por vulnerabilidades e dificuldades de comunicação. A proposta utiliza os princípios dos chamados jogos sérios, que têm um propósito educativo definido. “O jogo é um instrumento lúdico que gera educação em saúde”, explicou.
A construção do Campeonato da Cura contou também com a participação de profissionais da atenção primária prisional da Unidade Pedro Melo, aproximando o desenvolvimento da ferramenta da realidade vivenciada no serviço.
Parcerias para ampliar o rastreamento
A programação foi encerrada com a mesa “Construindo parcerias para ampliar o alcance e a perenização do rastreamento radiológico para detecção precoce da TB”, coordenada por Alexandra Sánchez.
A discussão retomou um dos principais pontos que atravessaram o seminário: a necessidade de planejamento conjunto para ampliar o rastreamento radiológico e articular diferentes estratégias de enfrentamento da tuberculose no sistema prisional, inicialmente com foco no Complexo de Gericinó.

Os resultados apresentados pela pesquisa e a experiência da Unidade Pedro Melo mostraram, de diferentes perspectivas, tanto o potencial da estratégia quanto os desafios para sua incorporação permanente à rotina dos serviços. O debate também reforçou a necessidade de integrar tecnologia, atenção primária, vigilância, tratamento, prevenção e condições adequadas de permanência nas unidades prisionais com a participação coordenada dos vários parceiros: Administração Penitenciara, Estado e Município de Rio de Janeiro, Médicos Sem Fronteiras e Fiocruz.
Nesse sentido, segundo Alexandra, o seminário aproximou os resultados produzidos pela pesquisa 'Prisões TB Zero' da agenda de implementação do 'Pena Justa Cuidar', colocando em discussão como as diferentes instituições podem atuar de forma coordenada para ampliar a detecção precoce e fortalecer o cuidado em saúde no sistema prisional. A tuberculose é um dos principais problemas de saúde pública no ambiente prisional, com impacto sobre a epidemiologia da doença na população livre.