
Evento reuniu pesquisadores e especialistas para discutir inovação, saúde digital, desenvolvimento tecnológico e os caminhos institucionais para aproximar ciência e soluções de interesse do SUS
Como transformar conhecimento científico e práticas desenvolvidas nos laboratórios em inovação capaz de gerar impacto na saúde pública? A pergunta atravessou a programação da primeira edição do 'InovaLab/ENSP – Inovação Laboratorial', realizada nos dias 24 e 25 de setembro pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz).
Organizado pela Vice-Direção de Ambulatórios e Laboratórios (VDAL), em parceria com as Vice-Direções de Desenvolvimento Institucional e Gestão (VDDIG) e de Pesquisa e Inovação (VDPI), o encontro reuniu pesquisadores e profissionais para discutir caminhos que aproximem ciência, inovação e necessidades do Sistema Único de Saúde (SUS).
Na abertura, a coordenadora de Laboratórios da ENSP, Adriana Regua, destacou a diversidade do ecossistema laboratorial da Escola, que reúne laboratórios de serviço como plataforma tecnológica, coleção biológica, laboratórios de referência nacional e local, central de inovação para tratamento de efluentes, e demais laboratórios de pesquisa, com atuação destacada em inovação mas sem vínculo atual com atividades de serviço. Segundo ela, todos os laboratórios atuam na área de ensino em diferentes níveis de formação.
De acordo com Adriana, a proposta do InovaLab nasceu da necessidade de ampliar as conexões entre essas diferentes experiências e criar condições para que conhecimentos e práticas desenvolvidos na ENSP possam avançar em direção a soluções de interesse da saúde pública.
A vice-diretora da VDAL, Fátima Rocha, reforçou a necessidade de integração entre os laboratórios e diferentes áreas do conhecimento. Ao abordar os desafios da inovação na ENSP, ressaltou que nenhum laboratório consegue responder sozinho à complexidade das demandas contemporâneas. “Um laboratório sozinho não vai dar conta disso”, afirmou, defendendo a construção de redes e parcerias dentro e fora da Fiocruz.

Em vídeo exibido durante a abertura, o diretor da ENSP, Marco Menezes, também destacou o papel dos laboratórios na produção científica, no ensino e na inovação, relacionando esse trabalho aos desafios da saúde pública e do SUS. Já o pesquisador emérito da Fiocruz Akira Homma, também em vídeo, recuperou parte de sua trajetória na Escola e na Fundação para refletir sobre a evolução da ciência, da tecnologia e da inovação em saúde e sobre a necessidade de preparar o país para desafios como emergências sanitárias, mudanças climáticas e novas tecnologias.
Da ciência à inovação: transformar conhecimento em impacto
A programação da manhã começou com a apresentação “Do conhecimento à inovação na ICT: caminhos possíveis”, de Aline Morais, da Coordenação de Inovação e Empreendedorismo do Instituto Gonçalo Moniz (Fiocruz Bahia). A pesquisadora partiu de uma questão central: embora o Brasil tenha uma produção científica expressiva, ainda existe uma distância entre o conhecimento produzido, sua proteção e sua transformação em produtos, processos e soluções disponíveis para a sociedade.
Para Aline, o desafio está justamente em construir mecanismos institucionais capazes de fazer essa conexão. Ela apresentou diferentes caminhos previstos nas políticas e instrumentos de inovação em saúde, incluindo parcerias, encomendas tecnológicas, transferência de tecnologia e estratégias de desenvolvimento e validação de soluções.

A pesquisadora também chamou atenção para a necessidade de que a área de inovação participe dos projetos desde o início, e não apenas quando a pesquisa já está concluída. Em sua experiência na Fiocruz Bahia, a atuação conjunta entre pesquisadores e a área de inovação tem contribuído para a elaboração de projetos e para a busca de recursos e parceiros. “Ninguém faz nada sozinho”, sintetizou.
Outro ponto destacado foi a importância de formalizar parcerias. Segundo Aline, muitos acordos deixam de ser registrados por desconhecimento dos instrumentos disponíveis ou pela ideia de que a formalização só seria necessária quando há uma patente envolvida. Para ela, estabelecer previamente direitos, responsabilidades e formas de acesso aos resultados protege pesquisadores e instituições e pode facilitar desdobramentos futuros.
A pesquisadora também ressaltou que patente não deve ser tratada como finalidade em si mesma. "A estratégia de inovação depende do estágio de desenvolvimento da tecnologia, do nível de proteção, das possibilidades de financiamento, do mercado e do objetivo que se pretende alcançar". Entre os obstáculos ainda presentes, citou burocracia, baixa maturação tecnológica, necessidade de inteligência de mercado, escassez de profissionais especializados e dificuldade de garantir financiamento contínuo para o desenvolvimento das tecnologias.
Saúde digital: dados para antecipar riscos e apoiar decisões
A vice-diretora de Pesquisa do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (ICICT/Fiocruz), Renata Gracie, apresentou o tema “Saúde digital como estratégia para impulsionar a inovação laboratorial”. A pesquisadora mostrou como a integração de diferentes bases de dados, ferramentas de geoprocessamento, sensoriamento remoto e sistemas de informação pode ampliar a capacidade de compreender situações de saúde em diferentes territórios.
A experiência do Laboratório de Informações em Saúde (LIS) e do Observatório de Clima e Saúde foi utilizada para mostrar que inovação digital não se resume à criação de novas ferramentas tecnológicas. Ela envolve também a capacidade de reunir, analisar e transformar dados em informações úteis para gestores, pesquisadores e sociedade.
Um dos exemplos apresentados foi o trabalho realizado durante situações de emergência. A partir de dados já disponíveis, a equipe consegue identificar áreas de risco e produzir análises que podem subsidiar decisões em tempo oportuno. Foi nesse contexto que surgiram, desde 2019, notas técnicas voltadas à comunicação rápida de resultados, especialmente diante de eventos extremos e emergências sanitárias.

“A gente não pode esperar publicar um paper para daqui a dois anos trazer essa informação que as pessoas podem tomar uma decisão agora”, afirmou Renata.
A pesquisadora apresentou ainda ferramentas desenvolvidas pelo grupo para monitoramento de qualidade do ar, eventos climáticos extremos, secas e ondas de calor, além de plataformas que permitem visualizar informações de saúde nos municípios brasileiros. A experiência mostrou como a articulação entre dados do SUS e informações ambientais, territoriais e meteorológicas pode produzir novas possibilidades de análise e apoiar respostas diante de situações cada vez mais complexas.
Da pesquisa ao mercado: quando “estar pronto” ainda não significa estar pronto
O terceiro debate da manhã trouxe uma perspectiva mais próxima da trajetória de uma tecnologia até sua aplicação. Em “Da pesquisa laboratorial à inovação tecnológica”, o engenheiro, cientista e empreendedor Marcel Guimarães Martins, CEO e CTO da Science Brasil e ex-integrante do programa Inova Fiocruz, apresentou experiências concretas de desenvolvimento de produtos.
A partir de casos da própria empresa, Marcel mostrou que a passagem da pesquisa para a inovação tecnológica envolve etapas que nem sempre são consideradas no ambiente acadêmico: proteção intelectual, validação, regulamentação, escala, produção, definição do público-alvo, modelo de negócio e inserção no mercado.
Um dos principais pontos de sua apresentação foi justamente desfazer a ideia de que uma tecnologia está pronta quando a pesquisa chega ao seu resultado. “Não, tá pronto a pesquisa”, resumiu, ao explicar que a transição para o mercado pode exigir novas etapas de desenvolvimento e ajustes.
O pesquisador também mostrou, a partir de experiências próprias, como decisões aparentemente técnicas podem alterar toda a estratégia de desenvolvimento de um produto. Mudanças de escala, embalagem, público-alvo e modelo de comercialização podem modificar a própria forma de pensar a tecnologia.
Para Marcel, o percurso entre uma solução científica e sua chegada efetiva à sociedade é longo e envolve uma mudança de perspectiva. “O difícil é a gente transformar isso em uma empresa e conseguir vender essa solução”, afirmou, ao relatar os desafios enfrentados no desenvolvimento de produtos da Science Brasil.

NIT/ENSP: inovação também passa por proteção, parcerias e segurança jurídica
Encerrando a programação da manhã, a coordenadora do Núcleo de Inovação Tecnológica da ENSP (NIT/ENSP), Ana Maricato, apresentou as atribuições do núcleo e os caminhos institucionais disponíveis para pesquisadores que desenvolvem projetos com potencial de inovação.
Em uma fala marcada por exemplos concretos do cotidiano da pesquisa, Ana abordou temas como propriedade intelectual, patentes, transferência de tecnologia, acordos de parceria, termos de transferência de material, cooperação internacional, acesso ao patrimônio genético e formalização de relações com instituições públicas e privadas.
A mensagem central foi que o NIT deve ser procurado desde o início dos projetos, especialmente quando existem possibilidades de desenvolvimento tecnológico, compartilhamento de materiais, geração de produtos ou estabelecimento de parcerias. "A formalização antecipada pode evitar problemas posteriores relacionados à propriedade intelectual, aos direitos sobre resultados e às responsabilidades de cada instituição".

Ana também apresentou situações vivenciadas pelo próprio NIT para mostrar como questões que parecem burocráticas podem ter consequências importantes para pesquisadores e para a instituição. Em sua avaliação, o papel do núcleo não é apenas estabelecer limites, mas ajudar a encontrar caminhos juridicamente seguros para que os projetos possam avançar.
Entre as iniciativas apresentadas, destacou-se a criação de um Comitê Gestor do NIT na ENSP, que reúne representantes de diferentes vice-direções, entre elas: VDAL, VDGES e VDE. A proposta amplia a compreensão de inovação na Escola para além dos produtos desenvolvidos em bancada, considerando também outras formas de produção e conhecimento presentes na instituição.
“Na ENSP a gente desenvolve muitos produtos que não são de bancada”, explicou Ana, ao defender que esses resultados também sejam identificados e valorizados. A ideia é avançar na construção de uma espécie de vitrine das diferentes produções com potencial de inovação desenvolvidas na Escola.
Ao final, a coordenadora reforçou a disponibilidade do NIT para orientar pesquisadores. Para ela, buscar o núcleo diante de uma dúvida pode evitar que questões relacionadas a contratos, propriedade intelectual ou legislação sejam identificadas somente quando o projeto já estiver avançado.
Oficina e LabTalks ampliaram a discussão
A programação do InovaLab/ENSP continuou na tarde do dia 24 com a oficina colaborativa “Práticas, transformações e impactos nos processos de inovação: contribuições aos laboratórios da ENSP: das práticas laboratoriais à oportunidade de inovação com valor público”, conduzida pelo Pólen – Laboratório de Inovação em Gestão Pública da ENSP/VDDIG. A atividade foi facilitada por Márcio Amorim Feitoza, com cofacilitação de Aline Macena, Fábia Cunha e Valéria Machado.


No dia 25, os próprios laboratórios da ENSP assumiram o protagonismo da programação nos 'LabTalks', apresentando iniciativas e experiências em diferentes áreas. Foram discutidos temas relacionados à vigilância microbiológica e uma só saúde; tratamento de efluentes; controle da esquistossomose por meio de biolarvicida vegetal; diagnóstico e inovação no Laboratório de Referência Nacional de Tuberculose e Micobacterioses; e experiências de pesquisa em saúde ambiental.

Crédito imagem: Larissa Guedes (CCDE/EPSJV).
Para a coordenação do evento, ao reunir diferentes perspectivas, o InovaLab/ENSP colocou em debate um percurso que começa na produção do conhecimento, passa pela identificação de problemas e oportunidades, exige articulação institucional, proteção e desenvolvimento tecnológico e chega ao desafio de transformar resultados em soluções efetivamente aplicáveis.
"Mais do que uma etapa posterior à pesquisa, a inovação apareceu ao longo dos dois dias como uma dimensão que pode atravessar o próprio modo de produzir ciência na ENSP, aproximando laboratórios, áreas de gestão, pesquisadores, parceiros e as necessidades concretas da saúde pública."