Por Guilherme Oliveira (estagiário de jornalismo)

As pesquisas científicas na área de saúde do trabalhador rural brasileiro, desenvolvidas pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz), indicam que condições organizacionais como exposição aos agrotóxicos, jornadas excessivas, metas abusivas, alta pressão por resultados, cobranças exageradas, insegurança no emprego e ausência de autonomia podem contribuir significativamente para o sofrimento psíquico e o adoecimento mental. Segundo levantamento da Great People Mental Health, 36% apresentam sinais de depressão, enquanto a média nacional da doença é de 15%.
Segundo Luciana Gomes, pesquisadora do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (Cesteh/ENSP/Fiocruz), a sobrecarga de trabalho é um dos fatores centrais nesse cenário. “Estudos apontam que jornadas extensas associadas a períodos insuficientes de descanso podem comprometer a saúde física e mental dos trabalhadores”, afirmou a pesquisadora.
Além disso, pesquisas desenvolvidas pela ENSP mostraram a associação entre a exposição a agrotóxicos e a ocorrência de transtornos mentais comuns em trabalhadores expostos no combate a vetores de arboviroses. Os trabalhadores do estudo relataram insônia, irritabilidade e esquecimento. A exposição a substâncias neurotóxicas foi relacionada a alterações neurológicas, cognitivas e psicomotoras.
Entre estes agrotóxicos estão os piretroides, presentes na composição de vários inseticidas domésticos de amplo uso pela população. Essas substâncias podem reduzir a produção de dopamina e serotonina, alterando os receptores cerebrais que regulam o bem-estar.
Dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) mostram a dimensão global do uso de agrotóxicos na agricultura. No Brasil, números do setor apontam que o agronegócio representa mais de 25% do PIB nacional. Entre 2019 e 2022, mais de 2 mil registros de agrotóxicos foram concedidos no país, parte deles envolvendo produtos não autorizados na União Europeia.

Conforme estudos nacionais apresentados no e-book "Saúde Mental no Agronegócio Brasileiro" (foto acima), os afastamentos por saúde mental passaram de 201 mil, em 2022, para 472 mil, em 2024, representando um aumento de 134%. Entre as principais causas estão reações ao estresse (28,6%), ansiedade (27,4%), episódios depressivos (25,1%) e depressão recorrente (8,46%).
Outros grupos afetados
O sofrimento psíquico no campo não atinge igualmente a todos os trabalhadores. As evidências científicas mostram que grupos sujeitos a maior precarização social e do trabalho, com desproteção social, isolados geograficamente, estão mais suscetíveis ao adoecimento mental.
Conforme o e-book, destacam-se os trabalhadores temporários e os migrantes (boias-frias), que estão mais vulneráveis. As causas são instabilidade financeira, falta de vínculo empregatício formal e a incerteza sobre a renda futura, ocasionando estresse crônico.
As mulheres rurais ainda enfrentam a invisibilidade e a desqualificação do seu trabalho, que é tratado como “ajuda”. Elas também encaram, segundo o e-book, uma sobrecarga de trabalho, considerando a jornada tripla relacionada aos cuidados da casa, das crianças, dos idosos, além da falta de autonomia financeira.
Machismo enraizado
De acordo com a Luciana Gomes, pesquisadora da ENSP, a cultura do machismo estrutural molda a masculinidade hegemônica e, no ambiente rural, esse modelo é mais acentuado: “A vida no campo costuma ser pautada num ideal de virilidade que remete à força física e à rusticidade, no silenciamento das emoções e também direciona o homem para o papel de provedor da família. Dentro deste padrão, o adoecimento é entendido como um sinal de fraqueza.”
Ainda segundo a pesquisadora da ENSP, o reflexo disso é perceptível na saúde pública e coincide com as análises da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH). “Os homens acabam acessando o SUS pela atenção especializada e de urgência. Ou seja, evitam a prevenção e a atenção primária. A negação da doença pode surgir a partir do medo de perderem a capacidade de trabalhar e, sobretudo, para os que estão desprotegidos socialmente, perderem a sua fonte de subsistência”, alertou Luciana.
Como cuidar da saúde mental do trabalhador
Para Luciana Gomes, a saúde mental dos trabalhadores no campo precisa ser tratada de forma integrada, como um reflexo das condições de vida e produção. Nesse sentido, para que as políticas públicas sejam eficazes na saúde mental, são necessários a erradicação do trabalho análogo à escravidão, o cumprimento da legislação trabalhista e as políticas de proteção social que asseguram renda mínima, crédito rural acessível e seguro agrícola contra intempéries (condições climáticas severas).
Atualmente, há medidas para apoiar os trabalhadores que estão com adoecimento mental. Entre elas, a Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo (PNSIPCF), além das equipes de saúde da família e unidades básicas de saúde. No campo, há equipes na rua que são adaptadas para atender migrantes em situação de extrema vulnerabilidade.
Estagiário de jornalismo, sob a supervisão da equipe de jornalismo do 'Informe ENSP'.