Nas relações de cuidado, a adesão do paciente, ou seja, o comprometimento de quem está sendo cuidado com os protocolos e as diretrizes propostas pelos profissionais da saúde, é um pressuposto comumente invocado. No entanto, para os participantes da roda de conversa sobre a cartilha “Nós aderimos ao paciente - apostando no vínculo como cuidado às pessoas em situação de rua”, é benéfico inverter essa lógica e apostar em uma dialogia do cuidado. "Nós, profissionais de saúde, precisamos aderir ao paciente", defenderam. O evento e o livreto foram estruturados a partir da experiência de cuidado do Consultório na Rua.
A atividade, realizada nesta quarta-feira (26/8), na Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz), foi organizada no âmbito do Projeto “Marcador social de raça, acesso e cuidado à população negra em situação de rua na APS – em busca de formas colaborativas de produção de 'saber-intervenção' contra o racismo", coordenado pela pesquisadora Roberta Gondim e vinculado ao Programa de Políticas Públicas e Modelos de Atenção e Gestão à Saúde (PMA) da Fiocruz. As desigualdades sociais e o racismo estrutural, diretamente relacionados à realidade da população em situação de rua, também estiveram no centro do debate. "Não é possível reduzir o cuidado a um passo a passo protocolizado e generalizante. O cotidiano do trabalho exige outras noções de cuidado, território e relações sociais, onde o risco dá lugar às dinâmicas de vulnerabilização, enquanto construção social", preconiza a cartilha.
Para o diretor da ENSP, Marco Menezes, aliar a prática acadêmica aos movimentos sociais é fundamental. "Na cartilha, há uma passagem que diz: 'tais circunstâncias exigem uma artesania do cuidado'. Esse trecho me marcou muito. Aqui, temos um grande exemplo do SUS que é feito por quem está na ponta. Entramos, também, em um outro ponto muito importante para a Fiocruz, que é o diálogo com a sociedade e com os movimentos sociais, para enfrentar desigualdades e proteger quem mais precisa", analisou. O diretor reforçou que o sistema de saúde deve avançar no enfrentamento do capacitismo, do racismo estrutural, do cissexismo, da misoginia e de tantas outras desigualdades sociais por meio de um olhar integrado. "Aqui, temos um grande exemplo de como ampliar a proteção social e reduzir as iniquidades em saúde. Esse material e essas experiências devem certamente influenciar nossa prática no dia a dia", afirmou.

As reflexões da obra partem de uma experiência real de atendimento no Consultório na Rua. Segundo a pesquisadora Roberta Gondim, a narrativa mostra um encontro simétrico entre o sujeito que cuida e o que está sob cuidado. Ela explicou que a adesão do paciente ao protocolo de saúde pode ser prejudicada pela 'mão única' da proposta. A perspectiva de "aderir ao paciente" adotada pela cartilha revê as matrizes orientadoras do processo de trabalho e, invertendo a lógica, aparece como aposta capaz de fortalecer o cuidado. "Afirmar que não houve acompanhamento médico porque o paciente não aderiu ao tratamento muitas vezes não se aplica, visto que é necessário que o sistema, os profissionais e as equipes façam também a adesão ao paciente, à sua história, às suas necessidades, às dinâmicas do cotidiano", defendeu. A coordenadora da pesquisa também reforçou: "O lugar social é definido pelo corpo. A rua tem cor e ela é negra". Ela destacou que, apesar da extensa produção sobre população em situação de rua, a maioria não considera o quesito cor em suas análises.
A pesquisadora Mayra Honorato, integrante da pesquisa, enfatizou que são pesquisadoras negras, trabalhando com profissionais de saúde negros, pensando em pessoas negras que estão na rua. Para ela, é importante compartilhar as experiências do cotidiano do cuidado com as pessoas em situação de rua. "Significa falar de indignação, improviso e singularidade, mas também de vínculo, humor, integridade e, fundamentalmente, o reconhecimento da humanidade do outro. Significa se deixar ser afetado pelo outro como uma tecnologia do cuidado, a partir do reconhecimento da exclusão e das formas possíveis de estar no mundo", refletiu. A professora defendeu a articulação entre produção acadêmica e militância.
A pesquisadora Lidiane Bravo também destacou o Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua, celebrado em 19 de agosto. Ela ressaltou a importância da presença de pessoas em situação de rua e de representantes de coletivos sociais no debate e na produção de conhecimento acadêmico. "Que pensemos cada vez mais em pesquisas voltadas para o aumento e a melhoria das políticas públicas, que construamos essas pesquisas com essas pessoas e ampliemos a nossa participação enquanto pesquisadores nos espaços dos movimentos sociais, para fortalecer essas discussões", defendeu.

"O Consultório na Rua executa o que está escrito no SUS", refletiram os integrantes do coletivo presentes no evento, Daniel de Souza, Marcelo Soares e Anderson de Araújo. Eles contaram mais sobre a experiência de cuidado retratada no livreto e reforçaram a importância do vínculo com os pacientes. "Ela queria ser cuidada e esse deve ser um processo de toque, escuta, respeito. É preciso estar próximo e entender o ser humano", compartilharam. A equipe também refletiu sobre os limites de sua atuação: "Só o Consultório na Rua não dá conta do recado; o cuidado deve ser um processo coletivo."
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