Emergências climáticas e desigualdades pautam debate no aniversário de 72 anos da ENSP

Mesa reúne Preto Zezé, da CUFA Brasil, e a pesquisadora indígena Pataxó Diádiney Helena de Almeida para discutir os impactos da crise climática em favelas e territórios indígenas

As mudanças climáticas deixaram de ser apenas uma preocupação ambiental e passaram a representar também um desafio para a Saúde Pública. Ondas de calor, secas, enchentes, desastres e a expansão de doenças transmitidas por vetores afetam de maneira desigual populações que já convivem com vulnerabilidades históricas. É a partir dessa perspectiva que a Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) promove, nesta quinta-feira, 3 de setembro, a mesa “Emergências Climáticas e Desigualdades”, como parte da programação dos 72 anos da Escola.

O debate será realizado às 10h, no auditório térreo da ENSP, com a participação de Francisco José Pereira de Lima, o Preto Zezé, cofundador da Central Única das Favelas (CUFA) Brasil, e Diádiney Helena de Almeida, pesquisadora da ENSP/Fiocruz e primeira pesquisadora indígena concursada da Fundação. A atividade terá mediação de Gideon Borges, vice-diretor de Ensino da ENSP, e contará com tradução para Libras. O debate também será transmitido pelo Zoom, com capacidade máxima de 300 participantes, sujeita à lotação da sala.

A discussão pretende aproximar diferentes perspectivas sobre a crise climática e seus efeitos nos territórios, considerando como desigualdades sociais e históricas podem determinar diferentes níveis de exposição aos riscos e diferentes possibilidades de prevenção e resposta. O debate parte de uma concepção ampliada de saúde, relacionada às condições de vida, trabalho, renda, moradia, meio ambiente e acesso a serviços, e busca aproximar conhecimentos acadêmicos e científicos das experiências de movimentos sociais e dos próprios territórios.

A programação do aniversário inclui ainda uma abertura institucional, com participação do diretor da ENSP, Marco Menezes; do presidente da Fiocruz, Mário Moreira; do presidente do Sindicato dos Servidores de Ciência, Tecnologia, Produção e Inovação em Saúde Pública (Asfoc-SN), Paulo Garrido; e da representante discente, Lílian Silva. Ao meio-dia, será realizado o tradicional corte do bolo de aniversário, no hall dos elevadores da Escola.

Desigualdade territorial e emergência climática

A experiência de Preto Zezé parte da atuação junto a comunidades e movimentos de favelas. Criado na favela das Quadras, em Fortaleza, ele tem trajetória ligada à mobilização social, ao enfrentamento das desigualdades e à defesa da participação das populações periféricas na formulação de políticas públicas.

Para ele, os eventos climáticos extremos evidenciam desigualdades que já fazem parte da vida cotidiana de muitas comunidades. A precariedade de infraestrutura, saneamento, drenagem e moradia, por exemplo, pode fazer com que os impactos de uma mesma ocorrência climática sejam muito diferentes de acordo com o território.

“O naufrágio pode ser geral, mas o afogamento é seletivo”, afirma Preto Zezé, ao tratar dos efeitos da crise ambiental nas favelas. Na avaliação do ativista, discutir justiça climática exige considerar as desigualdades territoriais e priorizar ações de proteção, prevenção e investimento nas populações mais expostas aos riscos.

A participação no debate também amplia a discussão sobre quem produz conhecimento acerca das emergências climáticas e quais experiências são consideradas na construção de respostas aos problemas ambientais e sociais.

Povos indígenas e produção de conhecimento

A perspectiva dos povos originários será trazida por Diádiney Helena de Almeida, historiadora Pataxó que ingressou neste ano como pesquisadora em Saúde Pública no Departamento de Endemias Samuel Pessoa da ENSP. Formada em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a pesquisadora é mestre e doutora em História das Ciências e da Saúde pela Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz).

Sua presença na Escola também está relacionada a uma discussão mais ampla sobre a participação indígena na produção científica. Para Diádiney, a chegada de uma pesquisadora indígena à instituição não deve ser compreendida apenas como uma trajetória individual, mas como parte de um processo de reparação histórica diante da ausência desses sujeitos nos espaços de produção de conhecimento.

“Não é mérito ser a primeira ou a única, mas significa um caminho de reparação histórica de uma produção de ciência marcada pela ausência”, afirma.

A pesquisadora defende ainda a necessidade de ampliar a participação dos povos indígenas na pesquisa, deixando de tratá-los exclusivamente como objetos de estudo. Nesse processo, conhecimentos produzidos nos próprios territórios podem contribuir para a compreensão dos problemas que afetam essas populações e para a construção de respostas mais adequadas às suas realidades.

Ao reunir essas perspectivas, a mesa propõe discutir as emergências climáticas para além de seus aspectos ambientais, considerando suas relações com território, desigualdade, saúde e participação social. A proposta também coloca em diálogo diferentes formas de conhecimento e experiências, contribuindo para refletir sobre os desafios colocados pela crise climática à Saúde Pública e à formação de profissionais da área.