“Existe uma crise global, mas os problemas são regionais”: especialistas discutem estratégias para preparar o SUS para emergências climáticas

ceensp 72 anos

Por Bruna Abinara e Danielle Monteiro

Como preparar o Sistema Único de Saúde para os impactos das emergências climáticas? Antecipar riscos, integrar diferentes informações e adaptar as respostas às características de cada território estão entre os caminhos apontados por especialistas que participaram do debate “El Niño e Saúde: aprendizados e desafios para o SUS”, promovido pelo Centro de Estudos Miguel Murat de Vasconcelos (Ceensp) na última quarta-feira (2), como parte da programação em comemoração aos 72 anos da ENSP. Segundo os palestrantes, esse planejamento deve levar em conta as desigualdades sociais e territoriais que tornam alguns grupos mais vulneráveis a esses fenômenos.

Preparação e resposta aos impactos das emergências climáticas na saúde

Para Edenilo Barreira, diretor do Departamento de Emergências em Saúde Pública do Ministério da Saúde (MS), preparação, adaptação e informação são pilares importantes no enfrentamento aos impactos das emergências climáticas. O convidado apresentou os desafios e aprendizados no âmbito nacional para o enfrentamento do El Niño.  

O palestrante enfatizou a importância de uma sala de situação permanente dedicada às emergências climáticas, para o monitoramento, a coordenação e a gestão de informações sobre os impactos da crise climática sobre a saúde. Edenilo esclareceu que não é possível enfrentar o El Niño, apenas seus impactos. Nesse sentido, destacou que medidas de adaptação são centrais, voltadas à atenção à saúde, promoção e educação em saúde. “Quando há a emissão de um alerta, por exemplo, sobre um ciclone ou tornado, a população muitas vezes não é orientada sobre como agir. É preciso educar e fornecer informação de qualidade", analisou.  

Segundo Edenilo, identificar precocemente riscos ambientais e climáticos, apoiar a resposta em saúde e planejar ações preventivas considerando as áreas mais vulneráveis pode contribuir para a redução de agravos, danos e óbitos relacionados a esses eventos. Por isso, a importância do investimento em ferramentas de vigilância. Ele defendeu que é preciso buscar informações qualificadas junto aos órgãos que monitoram o clima, para que se possa informar a população com dados corretos e fidedignos. A qualificação da equipe é outra medida necessária, segundo Edenilo.

O convidado apontou que desenvolver uma autonomia de municípios e estado na resposta a eventos extremos também é uma estratégia importante. Explicou que essas esferas devem ser capazes de oferecer uma resposta imediata e, caso sua capacidade seja superada, o Ministério da Saúde pode ser acionado. 

Ele ainda ressaltou a importância da parceria entre esferas de governo e instituições de ensino e pesquisa, e da cooperação internacional: "A emergência climática não pode ser enfrentada por um só país."  

Do risco climático aos impactos na saúde

Em sua apresentação sobre a preparação e as respostas para o El Niño e ondas de calor na cidade do Rio de Janeiro, a superintendente de Vigilância em Saúde do município, Gislani Mateus, ressaltou que as características sociais, territoriais e ambientais da capital fluminense ampliam os desafios relacionados aos eventos climáticos extremos. Segunda maior metrópole do país, com mais de 6 milhões de habitantes e 22% da população vivendo em favelas, o Rio está sujeito a inundações, deslizamentos, ilhas e ondas de calor e à elevação do nível médio do mar. Gislani disse que o Plano de Desenvolvimento Sustentável e Ação Climática da cidade mapeou parte desses riscos e apontou medidas de mitigação e adaptação. Diante desse cenário, foi criado o Centro de Operações e Resiliência, que integra informações meteorológicas e de saúde e reúne dados, equipes, planos e gatilhos para apoiar a preparação, o monitoramento e a resposta a emergências. 

A superintendente destacou a importância da capilaridade do sistema municipal de saúde para a identificação e resposta aos impactos das emergências climáticas no território. A cidade tem 80% de cobertura da atenção primária, além de redes de urgência e emergência, saúde mental e vigilância em saúde. O monitoramento climático conta com 15 estações meteorológicas distribuídas pelo território e seis modelos numéricos de previsão. Na vigilância, agentes comunitários de saúde e agentes de combate às endemias atuam também na identificação de eventos e impactos locais. 

Para Gislani, a experiência com o El Niño em 2023 e 2024, marcada por ondas de calor, enchentes na Zona Norte, epidemia de dengue e períodos de baixa umidade do ar, trouxe aprendizados e evidenciou a necessidade de mudanças na comunicação de risco e nas práticas cotidianas. “O calor sempre fez parte da identidade do Rio de Janeiro, mas a intensificação das temperaturas e dos eventos extremos trouxe a necessidade de adaptação”, contou.

Ela explicou que as vulnerabilidades ao calor extremo estão associadas a diferentes fatores individuais e comunitários, o que torna o fenômeno complexo. Crianças, idosos, pessoas com doenças crônicas e a população em situação de rua, por exemplo, estão entre os grupos mais suscetíveis, enquanto condições como arborização, densidade urbana, características do microclima e acesso a ambientes climatizados também interferem na exposição. Cerca de 40% do território da cidade está em áreas com maior concentração de calor. 

Apresentado pela superintende, um estudo da equipe do Centro de Inteligência Epidemiológica, baseado em uma série histórica de 2012 a 2024, identificou excesso de mortalidade associado a episódios extremos de calor e mostrou que o risco não depende apenas da temperatura máxima, mas também do tempo de exposição. Os resultados subsidiaram a elaboração do protocolo municipal de enfrentamento ao calor extremo, estruturado a partir de indicadores climáticos e de saúde. O documento aborda os riscos das altas temperaturas para a população, protocolos de monitoramento, alerta e resposta, além de ações de comunicação e orientações sobre o manejo clínico das principais condições relacionadas ao calor. “Os sistemas de saúde são um pilar da resiliência urbana. Integrar políticas públicas que enfrentem os desafios das mudanças climáticas, reduzam os impactos na saúde e garantam respostas rápidas e eficazes às emergências sanitárias é premente”, concluiu Gislani.

Do fenômeno global aos impactos locais

Se, no Rio de Janeiro, a preparação passa pelo monitoramento das ondas de calor e de seus efeitos sobre a população, os impactos do El Niño assumem diferentes formas em outras regiões do país. Essa perspectiva regional orientou a fala de Christovam Barcellos, do Observatório de Clima e Saúde, do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz). Ao abordar os aprendizados e desafios para o SUS diante do El Niño, o pesquisador destacou que a intensificação do fenômeno exige atenção às particularidades de cada território. “Existe uma crise global, mas os problemas são regionais. Por isso, é preciso entender o que está acontecendo em cada região”, alertou o pesquisador.

Conforme pontuado por Christovam, dados da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês) indicam 100% de probabilidade de permanência do El Niño até o início de 2027. A agência norte-americana aponta alta probabilidade de um fenômeno muito forte, com anomalias e desvios da temperatura da superfície do mar no Oceano Pacífico Equatorial superiores a 2,0 °C entre a primavera e o verão de 2026. 

No Brasil, as projeções do Monitor de Secas apontam diferenças entre os territórios, com maior probabilidade de chuvas acima da média no Sul e em partes de São Paulo e Mato Grosso do Sul e de chuvas abaixo da média no Norte e Nordeste, além de áreas do Brasil Central e do Sudeste. Para Christovam, os episódios recentes ajudam a dimensionar a diversidade dos impactos: o El Niño de 1997-1998 esteve associado a secas no Nordeste e chuvas intensas em partes da América do Sul; o de 2015-2016, a ondas de calor, seca na Amazônia e problemas de abastecimento de água; e o de 2023-2024, a recordes de calor, inundações no Sul e estiagens e queimadas no Norte. A seca na Amazônia Ocidental em 2024, quando o Rio Negro atingiu o menor nível desde o início das medições, e as enchentes no Rio Grande do Sul, em maio daquele ano, evidenciaram como os eventos climáticos podem afetar a saúde de forma indireta. Conforme explicou Christovam, a redução do nível dos rios, por exemplo, pode dificultar o acesso a serviços e medicamentos e agravar condições de saúde já existentes: “Não é que o aquecimento e a mudança climática vão gerar hipertensão. Eles vão agravar a situação de quem já é hipertenso”.

Para o pesquisador, um dos desafios é traduzir informações sobre temperatura, precipitação, secas, queimadas e poluição em indicadores capazes de orientar decisões no campo da saúde. Isso porque as relações entre eventos climáticos e agravos não são necessariamente lineares, imediatas ou restritas ao mesmo território: um deslizamento, uma enchente ou uma seca podem produzir consequências sanitárias meses depois e em localidades diferentes. Christovam citou o aumento de casos de leptospirose após as enchentes no Rio Grande do Sul como exemplo da necessidade de fortalecer a capacidade diagnóstica e a preparação da atenção primária. Como resposta a esse desafio, defendeu a produção de notas técnicas que façam a tradução de mapas, números e gráficos para profissionais de saúde e gestores. Esse é um processo que, segundo o pesquisador, deve ser acompanhado de capacitação, vigilância epidemiológica e laboratorial e reforço da atenção primária, da rede de urgência e dos demais serviços.

Para Christovam, a preparação não deve esperar a confirmação de um desastre. Entre os desafios, apontou a necessidade de articular diferentes escalas, do município à região, elaborar planos de contingência e adaptação, pensar além dos ciclos de governo e ampliar a participação da sociedade na produção e interpretação das informações. Pensar globalmente e localmente é, segundo ele, também parte desse processo.

Ampliando a perspectiva de que os impactos do El Niño assumem características distintas em cada região, Marcos Denicio, do Departamento de Saneamento e Saúde Ambiental (DSSA/ENSP), chamou atenção para as desigualdades existentes dentro dos próprios territórios. Segundo o pesquisador, essas disparidades podem determinar formas distintas de exposição e capacidade de resposta diante de eventos extremos. A partir da experiência das enchentes no Rio Grande do Sul, Denicio ressaltou que fatores como ocupação do solo, condições de infraestrutura, características geográficas e alterações no ciclo hidrológico podem ampliar a exposição das populações aos riscos. Por esse motivo, segundo ele, é preciso compreender essas diferenças para pensar medidas de prevenção e resposta diante de eventos extremos.

Denicio também chamou atenção para a necessidade de considerar aspectos ambientais e territoriais na preparação para emergências climáticas. Entre os pontos mencionados, estão o respeito aos leitos dos rios, a preservação e recomposição da vegetação, a ocupação adequada do território, o aprimoramento de modelos de previsão e o fortalecimento da comunicação e da educação ambiental. Ele defendeu ainda que essas medidas devem considerar as especificidades locais e contribuir para reduzir os impactos de eventos climáticos sobre as populações.

Com o tema "Emergências Climáticas e Desigualdades", as atividades comemorativas ao aniversário de 72 anos da ENSP seguem até sexta-feira (4). Confira a programação completa! 

Mesa de abertura: urgência climática, saúde, territórios e parcerias

“Trazer como tema dos 72 anos da Escola a agenda das emergências climáticas, tendo como ponto central o enfrentamento das desigualdades, permite debater a questão com as comunidades tradicionais e com os territórios, buscando discutir políticas públicas e ações de mitigação efetivas”, analisou o diretor da ENSP. Durante a mesa de abertura do evento, Marco Menezes enfatizou a importância de aliar a atuação da academia à sociedade e aos movimentos sociais. “A atividade de hoje representa um debate com a sociedade, com proposições para enfrentar a emergência climática e a crise hídrica, em particular os impactos do El Niño”, ressaltou.

A vice-diretora de Pesquisa e Inovação da ENSP ressaltou a importância de abordar o tema das emergências climáticas em diálogo com a área da saúde. Para Andrea Sobral, esse debate vai contribuir para o avanço em discussões sobre os impactos dos novos eventos climáticos e a construção de respostas para enfrentar essa nova realidade no âmbito do SUS. “Temos profissionais que trabalham com o tema em questão e devemos contribuir para melhorar a vida, principalmente das pessoas que estão mais sujeitas a eventos extremos. Esse é um dos papéis que temos”, analisou.

O pesquisador Carlos Machado (Cepedes/Cesteh/ENSP) alertou para o aumento da intensidade e da frequência de eventos climáticos extremos. Segundo o moderador da mesa, o mundo já atingiu uma marca prevista apenas para 2050, o que indica a grande velocidade em que a crise ambiental se agrava. "O tema da emergência climática e dos serviços de saúde já faz parte do nosso cotidiano. Por exemplo, o ciclone era um fenômeno que imaginávamos que acontecesse apenas no Sul do país, mas, de repente, passou a fazer parte do vocabulário aqui no Rio de Janeiro. Estamos diante de novos episódios, novos eventos e um novo cenário. É nesse contexto que esta atividade se inicia", destacou o moderador da mesa.  

O vice-presidente de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde da Fiocruz, Valcler Rangel, enfatizou o diálogo e a possibilidade de fortalecer parcerias com esferas estaduais e municipais, com os movimentos sociais e a sociedade civil. "É importante pensar em formas de atuação que estejam à altura do tamanho e da complexidade do problema que enfrentamos, além de combater e enfrentar a desinformação, oferecer alternativas e soluções possíveis, assim como contribuir para que tenhamos informações adequadas", defendeu.