Por Bruna Abinara
Em meio ao avanço da desinformação e à crescente pressão sobre as evidências científicas e as instituições acadêmicas, a confiança na ciência enfrenta novos desafios. Frente a esse cenário, o World Health Summit (WHS) e a revista The Lancet lançaram uma comissão conjunta sobre responsabilidade acadêmica. A pesquisadora Cristiani Vieira Machado, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz), foi selecionada para integrar essa iniciativa.
Composta por 30 especialistas de 22 países, a comissão sobre Responsabilidade Acadêmica para Confiança na Ciência e Mudança Social (WHS Academic Alliance–Lancet Commission on Academic Responsibility for Trust in Science and Societal Change) pretende avaliar o papel das instituições acadêmicas na sociedade, ampliar a confiança do público e fortalecer o papel da ciência. Saiba mais na página da WHS.
Fortalecer a ciência e aproximar pesquisadores e sociedade
A comissão atuará, ao longo de dois anos, na elaboração de recomendações e publicações baseadas em evidências para fortalecer a integridade, a inclusão e a relevância da pesquisa em saúde, além de promover uma participação mais equitativa no campo científico e de buscar reconstruir a confiança na ciência. Esses achados serão direcionados a instituições acadêmicas, formuladores de políticas e diferentes atores da sociedade.
“Isso é muito importante no mundo atual, em que vemos o aumento do negacionismo científico e da disseminação de desinformação e informações falsas, mesmo em momentos críticos, como foi o caso da pandemia de COVID-19. Essas crises reforçaram a necessidade de as instituições científicas e os pesquisadores estarem próximos e em diálogo com a sociedade”, refletiu Cristiani.
Compromisso institucional com a ciência
“Para mim, é uma honra e uma alegria representar a ENSP e a Fiocruz nesse debate”, celebrou. A seleção dos membros ocorreu a partir de indicações das instituições que integram a WHS Academic Alliance, da qual a Escola faz parte desde 2025. A participação de Cristiani foi uma indicação conjunta da Vice-Direção da Escola de Governo em Saúde (VDEGS) e da Vice-Direção de Pesquisa e Inovação (VDPI). “A ENSP indicou meu nome para participar da comissão. Foi feita uma avaliação e fui aceita, o que me honrou muito”, compartilhou.

O vice-diretor de Escola de Governo em Saúde da ENSP, Eduardo Melo, destacou a importância desse reconhecimento. “A participação de Cristiani Machado nessa comissão amplia a presença da ENSP e da Fiocruz em um espaço internacional estratégico de discussão sobre o papel das instituições acadêmicas e sua relação com a sociedade. A ENSP/Fiocruz é uma das poucas instituições latino-americanas a integrar a WHS Academic Alliance, e a seleção da nossa colega para essa comissão conjunta com a revista The Lancet é também um importante desdobramento dessa atuação, numa conjuntura particularmente crítica para as ciências”, afirmou.
Única representante do Brasil na comissão, a pesquisadora ressaltou a responsabilidade de integrar o grupo e a importância da participação da instituição nesse espaço internacional. “Somos uma instituição que faz pesquisa, forma profissionais, trabalha em cooperação com gestores do sistema de saúde e está comprometida com o fortalecimento do Sistema Único de Saúde e com a redução das desigualdades. Fazemos isso por meio de uma produção de conhecimento científico qualificado em diálogo com a sociedade, porque trabalhamos nesse marco da democracia, do diálogo e da participação social”, enfatizou.
Para Cristiani, a comissão reflete o posicionamento da ENSP/Fiocruz no campo científico e na sociedade brasileira: “É uma forma de reiterarmos o nosso compromisso com essas questões”. Também destacou que é uma oportunidade de aprender com colegas e experiências de outros países.
Impacto social e diálogo com a sociedade
A comissão reúne especialistas de diferentes regiões do mundo e de diversas áreas científicas, o que confere um caráter interdisciplinar à iniciativa. Serão organizados quatro grupos de trabalho dedicados a conceitos e medidas de responsabilidade acadêmica ao longo do tempo, fatores catalisadores da transformação acadêmica, o futuro das instituições acadêmicas e seu engajamento e impacto social. “Minha participação deve se dar por meio de um ou mais desses grupos de trabalho, que ainda estão em formação”, contou.
Segundo Cristiani, a expectativa é avançar estrategicamente nesse debate, fazer um balanço crítico do cenário atual e ter proposições para o fortalecimento e a transformação das instituições acadêmicas para o futuro. Com isso, espera-se alcançar mais impacto social e desenvolver outras formas de diálogo com a sociedade, para compreender melhor e dar melhores respostas às suas necessidades.