Evento reuniu profissionais no CRPHF para discutir acompanhamento dos pacientes, novos esquemas terapêuticos, farmacovigilância, gestão de medicamentos e experiências nos serviços

A assistência farmacêutica ocupa um lugar estratégico no cuidado às pessoas com tuberculose e envolve muito mais do que a dispensação de medicamentos. Acompanhamento farmacoterapêutico, adesão, identificação e manejo de eventos adversos, farmacovigilância, gestão dos estoques, registro de informações e articulação entre os diferentes serviços integram uma mesma cadeia de cuidado.
Essa perspectiva atravessou as discussões do II Simpósio de Assistência Farmacêutica em Tuberculose, realizado em 17 de setembro pelo Centro de Referência Professor Hélio Fraga, da ENSP/Fiocruz.
Com o tema “Assistência farmacêutica de qualidade: cuidado que transforma, evidência que cura”, o encontro reuniu profissionais para compartilhar experiências e discutir avanços e desafios relacionados à assistência farmacêutica, com destaque para o tratamento da tuberculose drogarresistente (TBDR).
Na abertura, a chefe do Serviço de Farmácia do CRPHF, Aline Gerhardt, destacou a responsabilidade da assistência farmacêutica no enfrentamento da doença. “A assistência farmacêutica vai muito além da gestão e da dispensação. Ela envolve acompanhamento farmacoterapêutico, garantia do acesso, adesão ao tratamento e suporte direto ao paciente e às equipes multidisciplinares”, afirmou.
Aline também ressaltou a chegada dos novos esquemas encurtados para o tratamento da tuberculose drogarresistente como um momento importante para a área. Segundo ela, a redução do tempo de tratamento e a introdução de novos medicamentos ampliam as possibilidades terapêuticas, mas também exigem atenção à segurança, ao acompanhamento dos pacientes e à vigilância dos eventos adversos.
Para a farmacêutica, o CRPHF tem ainda o papel de contribuir para a qualificação dos profissionais que atuam na área. “O nosso Serviço de Farmácia é também um polo de capacitação, formação e qualificação técnica para farmacêuticos, não só do Rio de Janeiro, mas de outras regiões do país”, destacou.

Acompanhamento que começa antes do problema
A atuação do farmacêutico clínico foi abordada pela farmacêutica assistencial Sabrina dos Santos, que apresentou estratégias desenvolvidas no ambulatório do CRPHF para acompanhar os pacientes desde a adesão ao tratamento até a conciliação medicamentosa.
Ao tratar da tuberculose resistente, Sabrina chamou atenção para a complexidade dos esquemas terapêuticos, que podem envolver múltiplos medicamentos, interações e eventos adversos. Nesse cenário, segundo ela, o trabalho do farmacêutico deve ser antecipatório.
“A ideia é identificar riscos antes que eles se transformem em problemas que comprometam a continuidade do tratamento”. Para favorecer a adesão, a equipe utiliza estratégias como prescrições personalizadas, pictogramas, materiais educativos, contagem de comprimidos e comunicação com os serviços de saúde.
Sabrina também apresentou a experiência do CRPHF com a conciliação medicamentosa, realizada antes do início do tratamento para identificar discrepâncias e possíveis interações.

O acompanhamento, explicou Sabrina, não termina com a entrega do medicamento. “Na tuberculose resistente, cuidar do medicamento é também cuidar do paciente”, destacou.
Cuidado seguro e farmacovigilância
A apresentação da farmacêutica responsável técnica do Serviço de Farmácia do CRPHF, Erica Fernandes, aprofundou a discussão sobre segurança no tratamento e manejo de eventos adversos. Com 16 anos de atuação no Hélio Fraga e na assistência a pessoas com tuberculose resistente, Érica ressaltou que os temas estão diretamente relacionados.
“Cuidar com segurança não significa apenas tratar a doença, significa acompanhar como o paciente responde ao tratamento, reconhecer precocemente os riscos e agir antes que um evento adverso se transforme em um dano maior”, afirmou.
Segundo a farmacêutica, o cuidado seguro envolve reduzir riscos evitáveis, monitorar o paciente durante todo o tratamento, reconhecer e manejar eventos adversos, comunicar e registrar as ocorrências e aprender com os episódios para evitar que se repitam.
Ela também destacou a importância de colocar o paciente no centro do cuidado, garantindo que ele conheça os medicamentos que utiliza, a finalidade do tratamento, os possíveis efeitos adversos e os sinais que devem ser comunicados à equipe.
“O primeiro passo é sempre ouvir o paciente”, enfatizou Erica, lembrando que o relato do usuário pode fornecer informações importantes para a identificação de um evento adverso e para a tomada de decisão da equipe.
Na tuberculose resistente, esse acompanhamento ganha ainda mais importância em razão da quantidade de medicamentos, da duração do tratamento, das interações e dos diferentes perfis de toxicidade. Érica explicou que um evento adverso nem sempre leva à suspensão do medicamento. A equipe precisa avaliar a intensidade e a gravidade do evento, sua relação temporal com o tratamento, outros medicamentos utilizados, doenças concomitantes e exames laboratoriais antes de definir a conduta.
“Manejar não significa simplesmente suspender o medicamento”, explicou. O manejo pode envolver orientação ao paciente, medidas de suporte, monitoramento, avaliação de exames, revisão de interações e estratégias de administração. A alteração ou suspensão do esquema terapêutico é uma das possibilidades, quando clinicamente indicada.
Para Erica, o acompanhamento também é fundamental para evitar que os eventos adversos comprometam a adesão. Um paciente que começa a apresentar sintomas sem compreender o que está acontecendo pode perder a confiança no tratamento, reduzir ou interromper os medicamentos e, consequentemente, comprometer sua eficácia. “Orientar o paciente não é apenas promover a adesão, é uma estratégia de segurança”, ressaltou.
Registrar para aprender
Outro ponto destacado pela farmacêutica foi a necessidade de registrar e comunicar os eventos. Segundo Erica, a informação registrada permite acompanhar a evolução do paciente, identificar recorrências, avaliar condutas e produzir indicadores que ajudam a aperfeiçoar os processos de trabalho. “Um evento que não é comunicado pode ser repetido, porque a gente não tem aprendizado, não tem plano de ação e não melhora nossos processos”, afirmou.
Foi nesse contexto que Erica apresentou a experiência do CRPHF com a farmacovigilância. Após um projeto-piloto iniciado em 2013, as atividades foram retomadas em 2019. A partir de então, o serviço passou de uma estratégia predominantemente passiva, baseada nas notificações espontâneas dos profissionais, para uma farmacovigilância ativa. Atualmente, uma das estratégias utilizadas é a análise sistemática dos prontuários. A equipe também realiza entrevistas com pacientes e mantém a possibilidade de notificações espontâneas.
A farmacêutica ressaltou que o registro não é apenas uma exigência burocrática. Ele permite construir conhecimento a partir da experiência e identificar padrões que podem orientar mudanças nos processos de cuidado. “Cuidar também não é só tratar, é acolher”, concluiu ela, destacando a importância do conhecimento técnico, sensibilidade e ética na humanização do atendimento.
Novos esquemas, novos desafios
A evolução do tratamento da tuberculose drogarresistente foi o tema da apresentação do coordenador do CRPHF, Jorge Rocha. Ao abordar os novos esquemas terapêuticos, ele ressaltou que o tratamento efetivo depende de uma combinação entre diagnóstico adequado, escolha racional dos medicamentos, acompanhamento clínico e organização dos serviços.

A trajetória dos tratamentos para TBDR passou de esquemas longos, que podiam chegar a 18 meses e incluíam medicamentos injetáveis, para alternativas totalmente orais e mais curtas. Jorge destacou o B-PaL, composto por três medicamentos e com duração de seis meses, como parte dessa transformação.
Segundo ele, a incorporação de novos esquemas envolve diversas etapas, que vão da produção das evidências científicas e dos estudos clínicos às recomendações do Ministério da Saúde, avaliação da Conitec, aquisição, implantação, capacitação e monitoramento.
A apresentação também trouxe resultados preliminares da experiência do CRPHF com o B-PaL, com 66 pacientes que iniciaram o tratamento em 2025. Os resultados preliminares, segundo Jorge, mostram que a redução da duração do tratamento não elimina completamente os desafios relacionados à adesão.
De acordo com ele, no CRPHF, uma das estratégias adotadas para aproximar o cuidado dos pacientes foi o projeto piloto do ambulatório itinerante em Nova Iguaçu, realizado entre 2024 e 2026, que trouxe resultados positivos. Outra estratégia para aproximar o cuidado que o serviço também desenvolve são as rodas de conversa com pacientes e familiares.
Quando o cuidado precisa chegar ao território
A dimensão social e territorial da tuberculose apareceu de forma concreta no painel de boas práticas, com a experiência apresentada pela farmacêutica Jessyca Queiroz, da AP 1.0. Ela relatou o acompanhamento de um homem de cerca de 40 anos, preto, em situação de rua, usuário de álcool e outras drogas e diagnosticado com tuberculose drogarresistente. A ausência de moradia fixa, a insegurança alimentar, a dificuldade de localização e a baixa adesão ao tratamento criavam barreiras que não poderiam ser enfrentadas apenas com a prescrição e a entrega dos medicamentos.
A equipe passou então a discutir o caso de forma compartilhada e a adaptar as estratégias de acompanhamento à realidade do usuário. Foram estabelecidos acordos para a tomada dos medicamentos na unidade, organizados os medicamentos para facilitar o acompanhamento e realizadas buscas no território.
Quando a primeira estratégia deixou de funcionar, a equipe ampliou a articulação com outros profissionais e serviços. O acompanhamento passou a envolver diferentes trabalhadores da rede, com apoio também do CAPS AD. Segundo Jessyca, a mudança foi percebida também na relação do usuário com a unidade. Aos poucos, ele passou a procurar o serviço não apenas para receber ou tomar o medicamento, mas também para beber água, conversar e buscar apoio.

A experiência, segundo ela, reforçou a importância da corresponsabilização entre os profissionais. Jessyca enfatizou a ideia de que o caso não deveria ser compreendido como responsabilidade de um único profissional, mas de toda a equipe. Para a farmacêutica, a experiência demonstrou que o cuidado precisa ser integral, longitudinal e adaptado às singularidades de cada usuário, com articulação entre os diferentes pontos da rede.
A cadeia que garante o acesso ao medicamento
O simpósio ampliou a discussão para os processos que acontecem antes de o medicamento chegar ao paciente. Os farmacêuticos Faber Johansen e Marcela Martins, da Coordenação-Geral de Vigilância da Tuberculose e Micobactérias do Ministério da Saúde (CGTM/MS), apresentaram aspectos relacionados à incorporação, aquisição, distribuição e gestão dos medicamentos.

Faber explicou que a aquisição em âmbito nacional envolve diferentes modalidades, de acordo com o medicamento e sua disponibilidade no país. O processo passa por evidências científicas, recomendações internacionais, avaliação de incorporação e definição das estratégias de aquisição.
A apresentação também mostrou que mesmo medicamentos produzidos no Brasil podem depender de insumos farmacêuticos ativos importados, o que cria outros desafios para a manutenção do abastecimento.
Marcela abordou especificamente o fluxo de gestão por meio do Sistema de Informação de Tratamentos Especiais de Tuberculose (SITE-TB). O sistema permite acompanhar os casos, validar solicitações, realizar pedidos e registrar as dispensações, além de fornecer informações para o planejamento nacional dos estoques.
Segundo ela, manter os registros atualizados é fundamental para que a gestão consiga acompanhar a situação dos pacientes e dos medicamentos. Uma dispensação que não é registrada, por exemplo, pode gerar divergências entre o estoque físico e as informações disponíveis no sistema.
A farmacêutica destacou ainda que o planejamento precisa considerar os prazos de estoque, segurança e transporte. Em algumas localidades, especialmente aquelas que dependem de transporte aéreo, a logística pode levar mais tempo, tornando necessário antecipar os pedidos.

Informação correta também é parte do cuidado
O funcionamento do SITE-TB voltou a ser discutido no encerramento do simpósio, com a participação das farmacêuticas Patrícia Ribeiro e Gabrielle Matos, da equipe de logística do Serviço de Farmácia do CRPHF.
Atendendo pedidos de todo o país, a equipe apresentou um Quiz sobre dúvidas frequentes relacionadas ao sistema. A atividade abordou situações como validação de casos, criação e acompanhamento de pedidos, divergências de estoque e critérios necessários para a solicitação de medicamentos.
A proposta, além de dinâmica, reforçou uma questão apontada ao longo das apresentações: a qualidade da informação interfere diretamente em toda a cadeia de abastecimento.
Patrícia explicou que um erro aparentemente pequeno em uma unidade pode ganhar outra dimensão quando se repete em diferentes serviços. Por isso, a equipe procura manter um diálogo constante com os profissionais responsáveis pelos pedidos e esclarecer dúvidas sobre os procedimentos.
A farmacêutica também chamou atenção para a importância da capacitação, especialmente diante da troca de profissionais nos serviços. “Às vezes vai havendo troca, a pessoa não recebe o treinamento correto e fica sem saber a quem perguntar ou como responder”, relatou.
Ao final, Patrícia trouxe uma reflexão sobre o trabalho da equipe de logística e sobre a relação entre cada etapa do processo e o paciente que está aguardando o medicamento. “No nosso dia a dia, a gente trabalha entre números, lotes, quantidades de caixas e embalagens, mas a gente está inserido nesse cuidado também. A gente tem a preocupação de atender”, afirmou.
Segundo ela, cada pedido tem uma história: alguém solicitou, alguém analisou, autorizou, separou, conferiu, embalou e enviou. No fim dessa cadeia, está uma pessoa esperando pelo tratamento. “E isso é o principal, pois essa pessoa que está esperando esse medicamento, está esperando pela sua cura”, destacou.
A reflexão de Patrícia encerrou o simpósio retomando uma ideia que atravessou as diferentes apresentações do dia: a assistência farmacêutica se constrói em muitas etapas e envolve diferentes profissionais, mas todas elas têm como finalidade garantir que o cuidado chegue de forma segura e adequada à pessoa que precisa do tratamento.
Para os profissionais envolvidos na assistência farmacêutica em tuberculose no Centro de Referência, o resultado desse esforço coletivo está justamente na possibilidade de olhar para trás e reconhecer que todo o trabalho valeu a pena quando o paciente consegue concluir o tratamento e alcançar a cura.

Equipe do Serviço de Farmácia do Centro de Referência Professor Hélio Fraga, unidade da ENSP/Fiocruz referência no SUS para o tratamento da tuberculose.