'Êxitos e desafios em saúde não têm fronteira': ENSP/Fiocruz recebe delegação de El Salvador para diálogo sobre experiências internacionais

Mesa com representantes da ENSP, do Ministério da Saúde de El Salvador e da OPAS

Visita reuniu representantes do Ministério da Saúde de El Salvador, da OPAS e da ENSP/Fiocruz para compartilhar experiências sobre organização dos sistemas de saúde, transformação digital e formação em saúde pública

Por Bruna Abinara

A Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) recebeu uma delegação de El Salvador para um encontro dedicado ao intercâmbio de experiências e conhecimentos sobre sistemas de saúde. A atividade reuniu representantes do Ministério da Saúde de El Salvador, da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e da ENSP/Fiocruz, com o objetivo de aproximar as instituições e discutir desafios comuns aos dois países, além de apresentar experiências brasileiras que possam contribuir para o desenvolvimento das políticas e dos serviços de saúde salvadorenhos.

Durante o encontro, foram apresentadas características da organização do sistema de saúde de El Salvador e do Sistema Único de Saúde (SUS), com destaque para temas como Atenção Primária à Saúde, organização das redes de serviços, formação de profissionais, transformação digital e participação social. A programação também abordou possibilidades de cooperação entre instituições dos dois países.

A visita integrou a agenda institucional da ENSP e reuniu a Direção, as Vice-Direções e outras áreas da Escola. A organização da atividade foi conduzida pela Vice-Direção de Escola de Governo em Saúde (VDEGS/ENSP). "Esse encontro foi uma oportunidade importante de troca sobre diferentes dimensões da organização dos sistemas de saúde, da Atenção Primária e da formação de profissionais à transformação digital. Conhecer outras experiências, compreender as respostas construídas em diferentes contextos e trazer a experiência do SUS para esse diálogo nos ajudam a refletir sobre nossas próprias práticas e a identificar possibilidades concretas de cooperação”, analisou Eduardo Melo, vice-diretor de Escola de Governo em Saúde.  

Além de Eduardo Melo, estiveram presentes Maurício de Seta, representando a Vice-Direção de Ensino (VDE/ENSP); Laura Viana, representando a Vice-Direção de Pesquisa e Inovação (VDPI/ENSP); Fátima Rocha, vice-diretora de Atenção à Saúde e Laboratórios de Saúde Pública (VDAL/ENSP); Ana Carneiro, vice-diretora de Desenvolvimento Institucional e Gestão (VDDIG/ENSP); a pesquisadora Cristiani Machado; Margareth Gomes, coordenadora da Assessoria de Cooperação Internacional; e Felippe Amarante, assessor de Cooperação Internacional.

Experiências para além das fronteiras

Na abertura da atividade, representantes da delegação salvadorenha destacaram o interesse em conhecer experiências brasileiras e estabelecer um diálogo que não se limitasse à observação de modelos, mas permitisse identificar práticas que pudessem ser adaptadas às necessidades de El Salvador.

"Viemos para aprender e conhecer o que é feito", declarou o vice-ministro de Gestão e Desenvolvimento da Saúde de El Salvador. Carlos Alvarenga destacou a importância da cooperação entre instituições e da troca de conhecimento. “Podemos aprender tanto com os sucessos quanto com as dificuldades enfrentadas por outros países, especialmente com a forma como esses desafios foram superados. Nem sempre adotamos diretamente as práticas e medidas que conhecemos; muitas vezes, precisamos adaptá-las às condições do nosso país para tentar transformar nossas realidades. Além disso, buscamos contribuir com os demais países da região. A saúde não tem fronteiras. Acredito que a melhor maneira de transformar nossas realidades é nos ajudarmos mutuamente”, concluiu.  

Oficial especialista da OPAS no Brasil, Fernando Leles ressaltou a importância do intercâmbio entre os países e destacou a trajetória da ENSP na análise de sistemas de saúde. Segundo ele, embora Brasil e El Salvador tenham diferenças significativas de território e população, os dois países enfrentam desafios semelhantes, como a transição demográfica, questões relacionadas ao financiamento, mudanças nas necessidades da população e avanço tecnológico. “A maioria dos problemas já tem solução ou já houve alguém que pensou sobre aquela questão, ainda que seja para compartilhar um caminho que não deve ser trilhado. O Brasil, pelo seu tamanho e sua diversidade, é um caldeirão de soluções e de criatividade para fazer frente aos desafios em saúde. E temos muito em comum com El Salvador”, analisou.

Julio Pedroza Toríbio, da OPAS, explicou que, no país, não existe formalmente uma escola de saúde pública. No entanto, o Ministério criou um instituto especializado em ensino de saúde que, na prática, funciona como tal. "Um dos nossos interesses é incluir essa instituição na rede de escolas de saúde pública da qual vocês fazem parte e conhecer os diferentes temas e experiências desenvolvidos", contou.

Conhecer, adaptar e aprender com experiências

Diretor de Planejamento Estratégico do Ministério da Saúde de El Salvador, Kevin Guevara destacou a expectativa de promover um intercâmbio efetivo entre as instituições. “Não se trata só de vir conhecer, mas de ver como podemos aprender com cada um dos desafios, com as boas práticas. Assim, podemos aplicar esses conhecimentos em nosso país.”

Melhorar a gestão dos serviços de saúde e garantir um atendimento mais seguro, oportuno e de qualidade para a população. Segundo Mónica Bernal, responsável pela Direção Nacional de Hospitais de El Salvador, essas são as metas a serem desenvolvidas e para as quais esse intercâmbio de experiências tem muito a contribuir. A sanitarista reforçou a expectativa de aprender com as práticas brasileiras, que colocam o país como referência mundial em saúde pública.  

Laura Marina Rauja, diretora do Primeiro Nível de Atenção, ressaltou o interesse em conhecer processos de ensino e aprendizagem que possam ser incorporados ao contexto salvadorenho. Já Roxana Elizabeth Ortiz Flores, da Direção de Monitoramento, apontou a relevância de pensar o processo de inovação digital em saúde. Por fim, Mónica Inés López de Quijano, da Diretoria de Gestão de Programas e Projetos de Investimentos, ressaltou os investimentos na área.

A transformação do sistema de saúde em El Salvador

Durante a apresentação sobre o sistema de saúde de El Salvador, a delegação destacou mudanças realizadas no país nos últimos anos e os esforços de reorganização da rede de serviços. Entre os temas apresentados estiveram a estrutura dos níveis de atenção, a integração das redes especializadas, o fortalecimento da infraestrutura e a transformação digital.

Um dos pontos enfatizados foi a utilização da experiência da pandemia de Covid-19 como oportunidade para ampliar capacidades do sistema de saúde. Segundo Carlos Alvarenga, foram realizados investimentos em infraestrutura, leitos e equipamentos, além da criação e ampliação de serviços.

A transformação digital também ocupou lugar de destaque nesse processo. A delegação relatou que os estabelecimentos de saúde do país foram digitalizados e que hospitais e unidades do primeiro nível de atenção passaram a utilizar um sistema único. Também foram mencionados investimentos em conectividade e desenvolvimento de ferramentas próprias para gestão e atendimento em saúde.

A estratégia apresentada inclui ainda a construção de um modelo de saúde baseado na análise das necessidades da população e das capacidades do sistema para respondê-las. O modelo passou a incorporar também a discussão sobre determinantes sociais da saúde e desigualdades, articulando-se a referências como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e a saúde universal.

O SUS como experiência de referência

A pesquisadora e docente da ENSP Cristiani Machado apresentou aos visitantes aspectos centrais da organização do sistema brasileiro. Ao contextualizar o SUS, ressaltou que sua criação, a partir da Constituição Federal de 1988, representou uma mudança na concepção da saúde no Brasil, que passou a ser reconhecida como direito de todos e dever do Estado e regida pelos princípios de universalidade, integralidade, equidade, participação social e descentralização político-administrativa.

A pesquisadora explicou a distribuição de responsabilidades entre União, estados e municípios. A Atenção Primária à Saúde foi outro eixo central da apresentação. Cristiani destacou a Estratégia Saúde da Família (ESF) como uma das principais estratégias adotadas no Brasil para ampliar o acesso e transformar o modelo de atenção.  

Entre os resultados associados à expansão da ESF, citou a redução da mortalidade infantil e materna, assim como das mortes por AIDS e tuberculose, a diminuição de internações por desnutrição e doenças crônicas, a ampliação da cobertura vacinal e das ações em saúde, bem como a redução das desigualdades na saúde e a expansão do acesso a serviços em municípios e áreas remotas.

Cooperação e formação em saúde pública

Além da apresentação dos sistemas de saúde, o encontro permitiu apresentar a atuação da ENSP na formação, pesquisa, cooperação e comunicação científica. Representantes da Escola destacaram sua estrutura de pesquisa e ensino e a atuação internacional da instituição.

A Escola também apresentou sua atuação como centro colaborador da OPAS/OMS e experiências relacionadas à Atenção Primária, políticas farmacêuticas e desenvolvimento estratégico dos sistemas de saúde.