Arquitetura inclusiva e neurodiversidade pautam debate no Hélio Fraga/ENSP

Por Tatiane Vargas e Erica Fernandes (CRPHF)

Palestra no CRPHF reuniu profissionais para discutir acessibilidade, acolhimento e o papel dos ambientes de saúde na experiência do cuidado.

O Centro de Referência Professor Hélio Fraga (CRPHF/ENSP/Fiocruz) realizou, no dia 24 de setembro, a palestra Arquitetura inclusiva em ambientes de saúde, no auditório da instituição. O encontro, conduzido pela arquiteta Tatilane do Vale, trouxe reflexões sobre como a organização dos espaços pode contribuir para ampliar a acessibilidade, a autonomia, a segurança e o acolhimento de diferentes pessoas nos ambientes de saúde.

Com quase duas décadas de experiência nas áreas de arquitetura e construção civil, incluindo atuação em projetos hospitalares, a arquiteta compartilhou com os profissionais do CRPHF conhecimentos de sua trajetória e experiências que aproximam sua atuação profissional da vivência pessoal. Mãe de Pietro, que tem paralisia cerebral, ela relatou como a maternidade atípica ampliou seu olhar sobre a inclusão e passou a orientar parte de sua atuação profissional.

Ao longo da apresentação, a palestrante abordou conceitos como arquitetura inclusiva, neurodiversidade e neuroarquitetura, destacando que a acessibilidade nos serviços de saúde vai muito além da instalação de rampas, elevadores ou banheiros adaptados. 

Para ela, pensar espaços inclusivos envolve também considerar aspectos como circulação, comunicação, orientação, autonomia, segurança, conforto e as diferentes formas de perceber e utilizar um ambiente.

Inclusão para além das barreiras físicas

A discussão sobre neurodiversidade trouxe para o encontro a necessidade de considerar diferentes formas de funcionamento cerebral na concepção e na organização dos espaços. "Ruídos, iluminação, estímulos visuais e sonoros, organização espacial e sinalização podem interferir de maneiras distintas na experiência de pacientes, familiares, acompanhantes e profissionais", explicou ela.

Nesse sentido, segundo do Vale, a arquitetura pode contribuir para reduzir situações de desconforto e facilitar a orientação e a autonomia das pessoas. Entre os recursos apresentados durante a palestra estiveram elementos de orientação tátil e sonora, contrastes visuais, controle de estímulos, espaços destinados à regulação sensorial e formas de comunicação acessível.

A palestrante também chamou atenção para as barreiras que não são imediatamente percebidas. "Além dos obstáculos físicos e estruturais, existem barreiras relacionadas à comunicação, aos comportamentos e às atitudes. Por isso, a construção de ambientes inclusivos também depende da preparação das equipes, da escuta dos usuários e do conhecimento sobre diferentes necessidades", destacou.

O ambiente como parte da experiência do cuidado

Ao longo da apresentação, os exemplos mostraram que o ambiente não deve ser compreendido apenas como o local onde o cuidado acontece. A forma como os espaços são planejados, organizados e utilizados pode facilitar ou dificultar a experiência de quem busca atendimento ou trabalha nos serviços de saúde.

A discussão também ampliou o olhar para além das pessoas com deficiência ou neurodivergência. Diferentes necessidades podem estar presentes entre pacientes, familiares, acompanhantes e profissionais, tornando a diversidade uma dimensão cotidiana dos serviços de saúde.

Para o CRPHF, a palestra possibilitou refletir sobre situações que fazem parte da rotina institucional e sobre formas de tornar os espaços mais acolhedores e acessíveis. A proposta apresentada foi a de reconhecer que pessoas diferentes podem perceber e vivenciar o mesmo ambiente de maneiras distintas, e que essa diversidade precisa ser considerada no planejamento dos espaços e também nas relações estabelecidas dentro deles.

Uma das ideias apresentadas durante o encontro sintetizou essa perspectiva: “o ambiente não substitui o tratamento, mas ele pode potencializar ou dificultar a experiência do cuidado”. A atividade foi coordenada por Erica Fernandes, da Assessoria de Comunicação, e Rosana Silva, do Núcleo de Qualidade de Vida no Trabalho do CRPHF.

Ao trazer a arquitetura inclusiva e a neurodiversidade para o cotidiano dos serviços de saúde, a iniciativa abriu espaço para uma reflexão que ultrapassa as adaptações físicas. "Acessibilidade, nesse contexto, envolve também informação, comunicação, acolhimento, autonomia e respeito às diferentes formas de vivenciar os ambientes, elementos que integram a experiência do cuidado e das relações de trabalho no Centro de Referência", ressaltaram as coordenadoras da atividade.