Por Alice Velho
Com o tema Biodiversidade em Transformação: conectando saúde, ambiente e sociedade, primeiro dia do evento ressaltou como as mudanças nos ecossistemas repercutem na saúde coletiva e na capacidade de resposta do SUS
A relação entre biodiversidade, saúde e transformações ambientais marcou o primeiro dia da 3ª Jornada Acadêmica Discente (JAD) da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz). Sob o tema Biodiversidade em Transformação: conectando saúde, ambiente e sociedade, a Jornada teve início em 30 de setembro, reunindo estudantes, pesquisadores, docentes, egressos e profissionais da área para discutir como as mudanças nos ecossistemas repercutem sobre a saúde coletiva.
Ciência, território e SUS
Presente na mesa institucional, o Diretor da ENSP/Fiocruz, Marco Menezes, destacou a emergência climática e as desigualdades como questões que precisam ocupar o debate público, tendo a ciência como instrumento para compreender os problemas e construir respostas. Ao abordar o fenômeno El Niño, Marco afirmou que é preciso ampliar a discussão com a sociedade e reconhecer os impactos das transformações ambientais sobre o Sistema Único de Saúde (SUS).

O Diretor também chamou atenção para a necessidade de pensar o enfrentamento das mudanças climáticas e doenças emergentes a partir das especificidades de cada território, defendendo respostas territorializadas, articuladas ao SUS, à valorização da biodiversidade e à produção de conhecimento científico.
Um espaço de formação e de comunicação da ciência
Comunicar os resultados da pesquisa para além dos espaços acadêmicos é parte importante do processo formativo e pode contribuir para novas formas de aproximar a produção de conhecimento da sociedade. Esse foi o aspecto levantado pelo Vice-Diretor de Ensino da Escola, Gideon Borges, ao destacar o caráter formativo da Jornada e sua inserção no projeto político-pedagógico da ENSP/Fiocruz.

Para o Vice-Diretor, a Escola também aprende com as experiências expostas na JAD: "É obrigação da ENSP apoiar a Jornada e assumir o compromisso da sua continuidade."
A Coordenadora da JAD 2026, Lillian Silva, falou sobre os três anos de construção do evento e destacou a articulação entre diferentes áreas da ENSP, além da participação de egressos e do envolvimento de estudantes e pesquisadores na programação. A edição deste ano reuniu representantes de diferentes programas de pós-graduação e residências da Escola.
A mesa institucional, também contou com a presença das discentes Gabriela Suarez e Ramila Sousa (de forma remota).
Por que a saúde pública precisa olhar para os ecossistemas?
Abrindo o ciclo de palestras, a pesquisadora Marcia Chame, fundadora da Plataforma Institucional Biodiversidade e Saúde Silvestre (PIBSS/Fiocruz), conduziu a mesa Biodiversidade em transformação: por que a saúde pública precisa olhar para os ecossistemas?. Sua fala estabeleceu a relação entre a perda da biodiversidade, o desequilíbrio ambiental e o surgimento de doenças.

Marcia lembrou que a biodiversidade não é estática: "Ao longo da história, as espécies se transformaram, desapareceram e se adaptaram às condições do planeta. A espécie humana, nesse contexto, representa apenas uma parcela pequena e jovem do processo evolutivo. A Terra já foi muito mais quente do que é hoje e isso não é um problema para a biodiversidade, é uma questão humana".
Um dos pontos abordados por ela foi o chamado efeito de diluição. Em ecossistemas com maior diversidade de espécies, as relações entre hospedeiros, vetores e agentes infecciosos podem reduzir a eficiência da transmissão de determinados patógenos. Quando a biodiversidade é perdida, esse equilíbrio pode ser rompido, o que aumenta as condições para que agentes infecciosos ultrapassem as barreiras entre espécies e alcancem populações humanas.
É nesse contexto que ganha força o conceito de Saúde Única (One Health), que propõe compreender de maneira integrada a saúde humana, animal e ambiental. O monitoramento dos animais, dos ecossistemas e das mudanças no território passa a ser, assim, parte da capacidade de antecipar riscos e organizar respostas.
"O desastre posto é muito complicado. A monitoração dos pequenos impactos é que precisa existir", afirmou Marcia. Segundo a pesquisadora, a ausência de vigilância e de respostas aos primeiros sinais pode permitir que processos localizados ganhem proporções muito maiores.
A reflexão reforçou a ideia de que a biodiversidade é uma das bases de sustentação da vida no planeta e de que a ciência pode aprender com os processos naturais para desenvolver respostas mais sustentáveis, que respeitem os limites dos ecossistemas.
Da biodiversidade à produção de respostas
A programação do primeiro dia seguiu aprofundando a relação entre transformações ambientais e saúde. Após a mesa de abertura, as discussões avançaram para o papel da fauna como sentinela das mudanças ambientais e climáticas e, à tarde, para os contaminantes emergentes e a biodiversidade invisível, abordando como a ação humana sobre os ecossistemas produz efeitos que podem alcançar diferentes níveis da cadeia ambiental.
O conjunto das atividades reforçou uma das principais questões propostas pela JAD 2026: compreender a biodiversidade não apenas como uma questão ambiental, mas como parte das condições que sustentam a vida e determinam riscos e possibilidades para a saúde das populações.
Reunir diferentes áreas da Saúde Coletiva em torno do debate é o que molda a JAD e reafirma seu caráter de espaço de apresentação, intercâmbio e comunicação da produção acadêmica.