Crise climática e vulnerabilidades em saúde marcam programação da 3ª Jornada Acadêmica Discente da ENSP

Mesa "Desigualdades socioambientais e vulnerabilidades em saúde" na JAD2026

Por Bruna Abinara 

Mudanças climáticas, desigualdades socioambientais e vulnerabilidades em saúde foram alguns dos temas destacados pela programação do segundo dia da 3ª Jornada Acadêmica Discente da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz). Com o tema “Biodiversidade em Transformação: conectando saúde, ambiente e sociedade”, a edição de 2026 reuniu alunos dos cursos de Pós-graduação Lato e Stricto Sensu da ENSP para debater questões ambientais atuais com um olhar para a saúde coletiva. As atividades foram realizadas nos dias 30 de setembro, 1º e 2 de outubro. 

A agenda do dia teve início com a mesa "El Niño, mudanças climáticas e saúde: riscos de surto, epidemias e pandemias", seguida pelo debate "Desigualdades socioambientais e vulnerabilidades em saúde". Na parte da tarde, houve uma sessão de apresentação oral dos melhores trabalhos, e a mesa "Desastres e adaptação em um planeta em transformação" encerrou a programação.  

El Niño, mudanças climáticas e saúde 

“Não estamos mais diante de mudanças climáticas, mas do colapso climático. A questão não é se haverá impactos, mas quem vai suportar o peso maior”, alertou o pesquisador Hermano Castro (Cesteh/ENSP). O primeiro palestrante do dia atribuiu a aceleração das mudanças climáticas e os eventos extremos ambientais às elevadas emissões de gases de efeito estufa decorrentes da ação humana. “A política industrial, os incêndios, o agronegócio, a política de transporte, todo o processo de urbanização com falta de infraestrutura: há uma série de cenários vinculados a esse impacto climático no Brasil”, enumerou. Para ele, o grande desafio é rever o modelo econômico para diminuir as emissões.  

Castro ressaltou que os mesmos eventos climáticos produzem impactos diferentes conforme o território. Populações negras, pobres e indígenas frequentemente vivem em territórios com infraestrutura insuficiente, saneamento precário e maior exposição a riscos ambientais. “A desigualdade que existe e persiste acaba sendo agravada em função desse racismo ambiental, porque é sobre essas populações que se abatem com mais força os impactos dos eventos climáticos”, explicou.  

O pesquisador também destacou o contexto de trabalhadores informais, como entregadores de plataformas, catadores e pescadores artesanais. Esses grupos estão mais expostos ao ambiente. No caso dos entregadores, por exemplo, períodos de ondas de calor ou chuva intensa podem aumentar a demanda por entregas e, simultaneamente, colocá-los em situação de risco elevado. 

Refletindo sobre a questão biológica, a pesquisadora Bruna de Paula (IOC/Fiocruz) abordou os riscos de surtos, epidemias e pandemias como resultado das mudanças climáticas. "58% das doenças infecciosas que a humanidade enfrenta foram, em algum momento, agravadas por riscos climáticos. Isso não é diferente com os vírus”, enfatizou.  

A palestrante explicou que as mudanças climáticas podem provocar deslocamentos humanos e animais. Com isso, alteram habitats e reduzem a biodiversidade, afetando também os nichos ecológicos e a distribuição de microrganismos. A aproximação de espécies que antes não compartilhavam os mesmos habitats aumenta a circulação de vírus entre diferentes hospedeiros. Esses novos contatos favorecem o spillover, processo em que um vírus adaptado a uma espécie passa a infectar outra e, em determinadas circunstâncias, chega aos seres humanos. Citou, ainda, um estudo que prevê 15 mil possíveis spillovers até 2070. 

Para a pesquisadora, vigilância epidemiológica molecular, epidemiologia baseada em esgoto, sistemas de operação e dados e monitoramento ambiental e climático são algumas das ferramentas de enfrentamento. “Entre as medidas essenciais estão a vacinação, o controle de vetores, a integração com a saúde animal e agropecuária, o saneamento, a comunicação e o engajamento social, além da cooperação intersetorial e internacional. É preciso que os diferentes setores dialoguem e que ações integradas sejam efetivamente implementadas”, defendeu. 

Encerrando a primeira mesa, o pesquisador Paulo Neufeld (UFRJ) relacionou o aquecimento global às infecções fúngicas. Ele explicou que os fungos e outros microrganismos são fundamentais para os ciclos do carbono, do nitrogênio e do fósforo. Esses organismos consomem e produzem gases de efeito estufa e, portanto, têm uma participação muito importante na fisiologia desse processo. Segundo o professor, as variações provocadas pelas mudanças climáticas alteram as comunidades microbianas, interferindo na decomposição, na liberação de nutrientes e no sequestro de carbono. 

Neufeld destacou ainda o papel dos microrganismos na regulação dos ecossistemas e do clima. Fungos e outros microrganismos participam da decomposição e da ciclagem de elementos essenciais, contribuindo para o funcionamento dos ecossistemas e para o sequestro de carbono. Segundo o pesquisador, as alterações provocadas pelo aquecimento global podem modificar essas comunidades e, consequentemente, interferir nesses processos. “As variações provocadas pelas mudanças climáticas vão produzir um impacto na comunidade de microrganismos que vai bagunçar isso”, afirmou. 

Desigualdades socioambientais e vulnerabilidades em saúde 

“É preciso desnaturalizar e racializar as desigualdades e os desastres ambientais”, defendeu a pesquisadora Roberta Gondim (DAPS/ENSP). A palestrante ressaltou que a ocupação e as dinâmicas sociais do território não são naturais ou neutras, mas sim o resultado de um processo histórico colonial e escravagista. “A racionalidade moderna eurocêntrica produz aquilo que Franz Fanon denomina ‘zona do não ser’: pessoas destituídas do mesmo estatuto de humanidade atribuído ao branco europeu”, explicou. Assim, direitos e privilégios são garantidos para uma parcela da população, enquanto são negados a outros grupos. 

Nesse contexto, Gondim recupera a oposição entre Casa-Grande e Senzala como referência para pensar a distribuição dos espaços. Para a pesquisadora, higienismo e eugenia foram usados para justificar a expulsão de populações pobres e negras dos espaços valorizados das cidades. “Não existe ocupação desordenada. Existe uma determinada ordenação da ocupação territorial que corresponde a um projeto de acumulação por parte de um grupo social que tem cor, que tem raça, que tem, inclusive, gênero e origem”, reforçou. 

Se o racismo estrutura a distribuição de direitos, recursos e territórios, ele também influencia quem vive próximo a lixões, rios poluídos, áreas de risco, regiões sem infraestrutura, que estão mais sujeitas a desastres. Gondim alerta que a questão ambiental não pode ser separada das relações raciais e sociais. Raça, classe, gênero, idade, deficiência, território e outros marcadores determinam diferentes níveis de exposição e capacidade de proteção. Por isso, os impactos climáticos tornam-se também uma questão de equidade em saúde. 

As vulnerabilidades em saúde e a invisibilização da população privada de liberdade foram o tema abordado pela pesquisadora Alexandra Sanchez (DENSP/ENSP). Refletindo sobre a ideia do "não ser" colocado por Gondim, a palestrante refletiu sobre o perfil deste grupo: "Trata-se de uma população composta, em sua maioria, por pessoas pretas ou pardas, com baixa escolaridade - uma taxa de analfabetismo funcional da ordem de 30%. Mais de 90% são provenientes de comunidades socialmente desfavorecidas."  

Sanchez explicou que fatores ambientais e estruturais prejudicam a qualidade da saúde nas prisões. Superlotação, acesso limitado à água, ventilação precária, alimentação inadequada e descarte irregular de lixo criam um ambiente propício à disseminação de doenças e infecções, que se espalham rapidamente e provocam consequências mais graves. Como exemplo, citou que o risco de adoecimento por tuberculose é 24 vezes maior nos presídios em relação à população geral. Apesar de ser possível tratar, a enfermidade é uma causa recorrente de morte nesses espaços, porque o contexto de desvalorização dos sintomas e as barreiras no acesso aos serviços dificultam o cuidado.   

Segundo a pesquisadora, as estruturas prisionais poderiam se tornar mais habitáveis por meio de modificações simples, como melhorar a circulação do ar. No entanto, o forte preconceito em relação à população prisional impede a implementação dessas mudanças. "Nossa função, enquanto sanitaristas e profissionais, é garantir melhores condições de vida e preservar a saúde. Muitas pessoas podem considerar que quem cometeu um crime merece enfrentar condições degradantes, mas a privação de liberdade não equivale à pena de morte. Essas pessoas devem ter condições de deixar o sistema prisional vivas e, idealmente, em melhores condições do que quando entraram", concluiu.  

"Nosso desafio de justiça climática não começou com o El Niño; ele vem de muito antes, das desigualdades sociais. A crise climática não é democrática; ela atinge de forma desigual quem vive em vulnerabilidade estrutural", ressaltou a pesquisadora Jaqueline Gomes (DIHS/ENSP). Diferentemente de algumas características demográficas mais facilmente identificáveis, a orientação sexual e a identidade de gênero nem sempre são visíveis. Ainda assim, produzem vulnerabilidades da mesma forma ou até de maneira mais intensa, especialmente no caso de pessoas trans, em razão da transfobia estrutural, da precarização do trabalho e do rompimento de vínculos familiares. 

Nesse sentido, os estigmas e preconceitos são grandes desafios dentro do SUS. Para exemplificar, a pesquisadora citou a “dor de cabeça trans”: a pessoa procura atendimento por uma questão comum, mas a identidade LGBTQIA+ domina a interpretação do caso e resulta em encaminhamentos inadequados ou na redução de todos os problemas à sexualidade e à identidade de gênero. Considerando as práticas excludentes que ainda afetam o cuidado, defendeu o investimento em uma educação e formação profissional inclusivas. "Não há saúde sem equidade e, para isso, é necessário reconhecer a diversidade humana em sua complexidade", defendeu.