
Iniciativas voltadas à qualificação do cuidado às pessoas com deficiência e à valorização das trajetórias de trabalhadoras negras refletem diferentes dimensões do compromisso da Escola com diversidade, equidade e inclusão
Dois projetos desenvolvidos na Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) estão entre os quatro destaques de suas respectivas categorias na 8ª edição do Prêmio Espírito Público, que recebeu 839 inscrições. As experiências concorrem em categorias distintas: o ‘Curso de Especialização para Qualificação da Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência no SUS’, coordenado pela pesquisadora Laís Silveira Costa, do Departamento de Administração e Planejamento em Saúde (Daps/ENSP), na categoria Saúde; e o ‘Encruzilhadas: Histórias e Vivências’, coordenado por Camilla Teixeira, analista do Serviço de Gestão do Trabalho (SGT/ENSP), na categoria Gestão de Pessoas.
Com o resultado desta etapa, a ENSP passa a integrar a disputa em duas categorias do Prêmio Espírito Público. Os projetos seguem agora para a etapa de votação popular, que será realizada posteriormente na plataforma oficial da premiação. A votação reunirá os destaques das sete categorias e definirá o projeto que receberá o Prêmio Especial do Público.
Criado para reconhecer iniciativas conduzidas por profissionais públicos e voltadas à transformação do serviço público, o Prêmio Espírito Público chega à sua oitava edição valorizando experiências que contribuem para enfrentar desafios concretos da administração pública brasileira.

Para a ENSP, a presença de dois projetos entre os finalistas dá visibilidade a experiências que articulam formação, trabalho, gestão, participação social e garantia de direitos. Embora atuem em campos diferentes, as duas iniciativas têm um ponto de aproximação: a busca por transformar práticas institucionais e políticas públicas a partir da perspectiva da equidade, da inclusão e da valorização da diversidade.
Esse movimento dialoga com uma agenda que vem sendo fortalecida pela Fiocruz e pela própria ENSP, por meio de políticas institucionais, espaços de participação e iniciativas voltadas ao enfrentamento das desigualdades. Mais do que experiências isoladas, os dois projetos mostram como esses princípios podem ganhar concretude no cotidiano de uma instituição pública.
Formação para transformar o cuidado
Na categoria Saúde, o Curso de Especialização para Qualificação da Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência no SUS nasceu de uma lacuna identificada na própria organização da atenção. Embora o Brasil disponha de marcos legais e de uma política nacional voltada à saúde das pessoas com deficiência, ainda existem desafios para transformar esses princípios em práticas cotidianas nos serviços.
Segundo Laís Silveira Costa, o curso surgiu da necessidade de fortalecer, no SUS, uma atenção integral às pessoas com deficiência, orientada pelos direitos humanos, pela equidade, pela acessibilidade e pela participação social.
“Embora o Brasil disponha de marcos legais e de uma política nacional para essa área, ainda há desafios para que esses princípios se traduzam nas práticas cotidianas dos serviços de saúde”, explica.
Entre as lacunas identificadas estavam a necessidade de ampliar a formação dos trabalhadores para o cuidado integral, qualificar a articulação da Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência e enfrentar barreiras que dificultam o acesso e a participação dessas pessoas nos serviços. O curso também buscou superar uma atenção centrada exclusivamente na deficiência e na reabilitação, herança do modelo biomédico, fortalecendo uma formação orientada pelos direitos humanos e pelo enfrentamento ao capacitismo.
A iniciativa já formou 240 profissionais de diferentes regiões do país, com estudantes provenientes de 120 municípios de 25 unidades federativas. Para Laís, um dos aspectos centrais da experiência foi garantir que a diversidade estivesse presente não apenas como tema de estudo, mas também na própria construção do processo formativo.
46% dos docentes são pessoas com deficiência, uma escolha que produziu tensionamentos e colocou em questão relações hierárquicas tradicionalmente estabelecidas entre pessoas com e sem deficiência.
“A tutela, a negação da subjetividade, que historicamente impede o cuidado respeitoso e de qualidade, foi colocada em xeque”, afirma.
O capacitismo, um dos principais determinantes de saúde das pessoas com deficiência, ganhou centralidade no processo de ensino e aprendizagem, contribuindo para fortalecer a capacidade do SUS de ofertar um cuidado mais humanizado, que considere a pessoa em sua integralidade.
Os resultados aparecem também nas experiências desenvolvidas pelos estudantes. Há relatos de mudanças na elaboração de projetos terapêuticos singulares, com maior respeito ao protagonismo das pessoas com deficiência; articulação com diferentes equipamentos de saúde dos territórios; realização de oficinas e atividades de formação; além da produção de cartilhas, vídeos e outros materiais de disseminação do conhecimento.
Os trabalhos de conclusão de curso foram estruturados como projetos de intervenção ou relatos de experiências voltados à qualificação da rede de cuidados, com possibilidade de replicação em outros territórios. Como sintetiza uma expressão utilizada pelos próprios estudantes, a proposta é “polinizar esse conhecimento para qualificar o cuidado”.
Para Laís, a transformação provocada pela formação não se limita aos profissionais individualmente. “Mais do que formar profissionais individualmente, a iniciativa se comprometeu com a transformação da própria Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência”, afirma.

Crédito imagem: Revista Radis.
Esse processo ainda está em curso. A equipe vem estruturando mecanismos para acompanhar as mudanças nas práticas profissionais e nos territórios, reconhecendo que a transformação de uma rede de atenção é contínua e que seus efeitos precisam ser observados ao longo do tempo.
Acessibilidade como princípio
A experiência dialoga diretamente com a Política de Acessibilidade e Inclusão das Pessoas com Deficiência da Fiocruz, ao compreender a acessibilidade como direito e responsabilidade institucional, e não como uma adaptação pontual para atender determinadas pessoas.
No curso, esse princípio aparece na própria concepção da formação. Pessoas com deficiência participaram de diferentes etapas do projeto, desde a concepção até a composição das bancas de avaliação dos trabalhos de conclusão. Também estão presentes como estudantes, docentes e participantes da construção dos processos formativos.
Um exemplo é a participação de docentes com deficiência intelectual, acompanhada pela criação de um grupo de apoio e mediação assistiva para favorecer sua atuação nas atividades pedagógicas.
A perspectiva, explica Laís, é deslocar a pergunta de “como adaptar a pessoa?” para “quais barreiras precisamos remover para garantir sua participação?”.
“Assim, acessibilidade e inclusão não são conteúdos isolados do curso, mas princípios que orientam a própria forma de fazer educação e de pensar o cuidado no SUS.”
Estar entre os finalistas do Prêmio Espírito Público, para a coordenadora, representa o reconhecimento de uma proposta de educação comprometida com a justiça social e construída em parceria com grupos historicamente minorizados.
“Evidencia a pertinência de revermos hierarquias históricas nos processos de ensino e aprendizagem, considerando que a diversidade de olhares e vivências é condicionante para qualificar o entendimento dos desafios de um SUS que se pretende equânime, integral e universal”, avalia.
Para ela, o reconhecimento também amplia a responsabilidade de dar continuidade à experiência e buscar sua incorporação às estratégias permanentes de formação do SUS.
“O objetivo não é, e nunca foi, que a especialização seja uma experiência isolada, mas que contribua para consolidar uma cultura institucional em que acessibilidade, equidade, participação social e enfrentamento ao capacitismo sejam componentes permanentes da atenção à saúde.”
Quando reconhecer histórias também é fazer gestão
Na categoria Gestão de Pessoas, o projeto Encruzilhadas: Histórias e Vivências parte de uma experiência pessoal para propor uma reflexão sobre as relações de trabalho na ENSP.
Coordenadora da iniciativa, Camilla Teixeira conta que o projeto nasceu de sua própria trajetória como trabalhadora negra. Ao participar de grupos de trabalho, coletivos e outros espaços institucionais e ampliar seu processo de letramento racial, ela percebeu mudanças na forma como se relacionava com a própria instituição. “Eu me tornei mais segura, mais consciente e me sentindo mais pertencente à instituição”, relata.

Ao mesmo tempo, Camilla começou a perceber que outras trabalhadoras negras da Escola, algumas com muitos anos de instituição, acumulavam histórias de vida e trajetórias profissionais potentes que permaneciam pouco visíveis.
“Muitas trabalhadoras negras estavam na ENSP há anos, tinham histórias de vidas e trajetórias institucionais muito potentes, mas que muitas vezes permaneciam invisibilizadas, ou não se sentiam seguras para ocupar determinados espaços.”
Foi desse encontro entre experiência pessoal e percepção do cotidiano institucional que surgiu o Encruzilhadas: a proposta de criar um espaço de escuta, acolhimento e reconhecimento no qual as trabalhadoras negras pudessem contar suas próprias histórias e se perceber como figura central.
O projeto foi contemplado pelo edital de inovação em gestão pública do Pólen e desenvolveu atividades de acolhimento, escuta, letramento racial e valorização das trajetórias das participantes.
Para Camilla, a institucionalização da iniciativa foi fundamental para que o projeto pudesse acontecer.
“Eu tinha esse desejo, mas não sabia muito como realizar. Então, quando teve esse edital, eu falei: ‘Bom, acho que agora eu consigo um espaço para colocar esse sonho em prática’.”
O apoio institucional, segundo ela, também possibilitou mobilizar chefias e trabalhadoras para a participação nas atividades.
Escuta, pertencimento e reconhecimento
Ao longo do projeto, uma das principais transformações percebidas por Camilla foi a possibilidade de as participantes se reconhecerem como figuras centrais de suas próprias histórias.
“A gente criou um espaço de escuta e acolhimento em que as experiências puderam ser compartilhadas, reconhecidas, valorizadas, e a gente conseguiu fazer ecoar a voz dessas trabalhadoras dentro da instituição.”
Segundo ela, muitas participantes traziam histórias e saberes potentes, mas nem sempre se sentiam ouvidas ou seguras para falar. O projeto buscou criar justamente esse espaço de segurança e pertencimento, uma dimensão que, para Camilla, também precisa ser compreendida como parte da gestão de pessoas.
“Eu acho que esse projeto proporcionou a elas essa sensação de pertencimento, da segurança, de que elas fazem parte da história da ENSP, de que o trabalho delas é importante, de que o que elas têm para contribuir tem valor.”
A experiência também levou a coordenadora a ampliar a própria compreensão sobre o papel da gestão de pessoas. Para ela, trabalhadores e trabalhadoras não devem ser vistos apenas como pessoas que executam tarefas, mas como agentes de transformação do trabalho e da própria instituição.
“Quando as pessoas se sentem reconhecidas, quando sentem que sua história é importante, que os conhecimentos e saberes que elas produzem têm valor, inclusive para contribuir com o funcionamento daquela instituição, isso vai interferir na forma como elas vivenciam o trabalho e como se relacionam dentro da instituição”, explica.
Nesse sentido, o projeto se relaciona também com a qualidade de vida no trabalho, ao criar condições para que as trabalhadoras reconheçam o valor de suas trajetórias e de suas contribuições. No caso das mulheres negras, essa discussão ganha ainda outra dimensão, diante da persistência de desigualdades no acesso a espaços de liderança e decisão no serviço público.
Para Camilla, o Encruzilhadas parte justamente de perguntas sobre quem são as pessoas que constroem a instituição, quais trabalhadores são reconhecidos, quais saberes e experiências são considerados e quais trajetórias permanecem invisibilizadas. Ao trazer essas questões para o cotidiano institucional, o projeto também contribui para refletir sobre o clima organizacional e sobre as mudanças necessárias para a construção de relações de trabalho mais inclusivas e equitativas.
As atividades também possibilitaram o contato com a história e a ancestralidade, ampliando a reflexão sobre as trajetórias das participantes. O projeto entra agora em uma nova etapa, com o resgate das histórias familiares a partir do teste de ancestralidade realizado pelas trabalhadoras.
Para Camilla, compreender como as pessoas vivem o trabalho, se sentem pertencentes, são reconhecidas e experimentam as relações raciais no cotidiano também é fazer gestão de pessoas.
“Cuidar das trabalhadoras e trabalhadores é função da gestão de pessoas. Criar ambientes mais inclusivos, modificar a cultura organizacional, buscando uma cultura antirracista, é papel da gestão de pessoas.”
Equidade como prática institucional
O Encruzilhadas dialoga diretamente com a Política de Equidade Étnico-Racial e de Gênero da Fiocruz, instituída em 2023, que estabelece princípios e diretrizes para a promoção da equidade, a valorização da diversidade e o enfrentamento das desigualdades na instituição.
Para Camilla, a política amplia a compreensão de que a equidade não deve ser tratada como uma questão isolada da gestão de pessoas, mas como uma dimensão que atravessa a vida institucional, as relações de trabalho e a forma como a instituição acolhe, reconhece e cuida de seus trabalhadores.
“Eu vejo o Encruzilhadas como uma experiência que coloca em prática muitos dos objetivos que estão na política de equidade da Fiocruz. Os princípios de equidade, diversidade, acolhimento, participação e valorização das pessoas estão no cotidiano dessas trabalhadoras através desse espaço de escuta, onde elas podem contar suas histórias, reconhecer o valor das suas trajetórias e se perceber como agentes de transformação do trabalho dentro da instituição.”
Nessa perspectiva, falar de gestão de pessoas também é falar de relações raciais. O projeto desloca a discussão para além dos processos administrativos e incorpora dimensões como pertencimento, reconhecimento, valorização dos saberes e transformação das relações no ambiente de trabalho.
A experiência se insere em um movimento mais amplo da ENSP para incorporar a diversidade e a equidade como dimensões da vida institucional. A Escola vem fortalecendo espaços de discussão e construção coletiva sobre o tema, em diálogo com as políticas da Fiocruz e com diferentes áreas da instituição.
Entre essas iniciativas está a Comissão Permanente de Diversidade e Equidade da ENSP, que atua junto à Direção na construção de ações voltadas à valorização das diferenças, ao enfrentamento das desigualdades e à promoção da equidade.
Em 2025, a Escola realizou o seminário ‘Por uma agenda de Diversidade e Equidade na ENSP: perspectivas e desafios’, reunindo trabalhadores, estudantes e pesquisadores para discutir a implementação das políticas institucionais e construir ações para diferentes áreas da Escola.
A agenda também vem avançando no ensino, com a estruturação do Núcleo de Gestão da Diversidade e Políticas Afirmativas na Vice-Direção de Ensino, fortalecendo a incorporação da diversidade, da equidade e das políticas afirmativas à formação.
Esse conjunto de iniciativas integra uma trajetória mais ampla da Fiocruz, que conta com o Comitê Fiocruz pela Acessibilidade e Inclusão das Pessoas com Deficiência e a Política de Acessibilidade e Inclusão das Pessoas com Deficiência, além do Comitê Pró-Equidade de Gênero e Raça e da Política de Equidade Étnico-Racial e de Gênero. A instituição também conta com estruturas dedicadas à promoção da diversidade, da equidade e da inclusão, como a Coordenação de Equidade, Diversidade, Inclusão e Políticas Afirmativas (Cedipa).
É nesse contexto que experiências como o Encruzilhadas ganham dimensão institucional: ao trazer para a gestão de pessoas a discussão sobre pertencimento, reconhecimento, diversidade e relações raciais a partir das vivências de quem está no cotidiano da Escola. Ao reconhecer trabalhadoras como produtoras de saber e agentes de transformação, o projeto também propõe uma mudança na própria forma de compreender a gestão e as relações de trabalho.
Duas experiências, um compromisso
Em áreas diferentes, os dois projetos finalistas colocam a equidade no centro de processos que muitas vezes são compreendidos apenas a partir de perspectivas técnicas ou administrativas.
No curso coordenado por Laís, a mudança passa por reconhecer as pessoas com deficiência como sujeitos de direitos e participantes da construção das respostas que lhes dizem respeito. No Encruzilhadas, passa pelo reconhecimento de que as experiências, histórias e relações raciais também fazem parte da gestão de pessoas e da construção do ambiente de trabalho.
São experiências diferentes, mas que apontam para uma mesma compreensão: diversidade, acessibilidade e equidade não são dimensões externas à atuação de uma instituição pública. Elas atravessam a forma como se produz conhecimento, como se formam profissionais, como se organiza o trabalho e como se constroem políticas e serviços.
É nesse sentido que a presença dos dois projetos entre os destaques do Prêmio Espírito Público ganha significado para a ENSP. A participação em duas categorias também amplia a visibilidade das experiências desenvolvidas na Escola e abre uma nova etapa de participação pública no reconhecimento dos projetos. A votação popular será aberta posteriormente na plataforma oficial do Prêmio Espírito Público, reunindo os destaques das sete categorias.
Para Camilla, esse é um dos próximos desafios do Encruzilhadas: transformar a experiência em conhecimento e deixar um legado. “Eu acho que o desafio é transformar essa experiência em conhecimento, deixar um legado.”
A ideia é sistematizar o projeto e produzir materiais que permitam que a experiência seja conhecida e adaptada em outras instituições.
“Encruzilhadas é replicável, é adaptável, faz parte de gestão de pessoas. Acho que ele ajuda a trazer uma reflexão boa sobre a importância da gestão de pessoas também para a luta antirracista.”
Para Laís, o desafio também é fazer com que a experiência não permaneça isolada. “A continuidade e a ampliação da formação são fundamentais para que acessibilidade, equidade, participação social e enfrentamento ao capacitismo possam se consolidar como componentes permanentes da atenção à saúde.”
Assim, em meio ao reconhecimento proporcionado pelo prêmio, os dois projetos apontam para uma questão que ultrapassa a própria premiação: como transformar experiências inovadoras em práticas permanentes capazes de produzir mudanças nas instituições e nas políticas públicas?
Na ENSP, esse processo vem sendo construído em diferentes frentes - no ensino, na pesquisa, na gestão, nas relações de trabalho e na participação social. Os dois projetos finalistas representam, cada um a seu modo, experiências concretas desse movimento.
E, para Camilla, há ainda uma dimensão do reconhecimento que não depende do resultado da premiação. “Independentemente do prêmio, a gente já ganhou porque conseguiu criar uma rede ali, criar um espaço seguro para que essas trabalhadoras possam se sentir acolhidas, se sentir ouvidas. Isso, para mim, é o maior prêmio.”