Quem tem menos espaço nas plataformas? Debate na ENSP discute violência algorítmica contra pessoas LGBTQIAPN+

Por Danielle Monteiro

O que acontece com corpos e afetos que fogem aos padrões de gênero e sexualidade nas plataformas digitais? Em debate na ENSP, Bruna Irineu e Larissa Pelúcio, autoras do livro Violência Algorítmica e Vidas LGBTQIAPN+: ensaios sobre tecnologia, poder e resistência na era digital, vão discutir como algoritmos, sistemas automatizados e políticas de conteúdo podem reproduzir práticas de exclusão contra uma população historicamente discriminada, além de apresentar ações de resistência a esses mecanismos. A atividade acontecerá no dia 28 de agosto, das 10h30 às 12h, na sala 410.

Durante o encontro, as pesquisadoras vão detalhar a obra de sua coautoria, que traz resultados de pesquisa sobre mecanismos discriminatórios presentes em plataformas digitais contra pessoas LGBTQIAPN+, com impactos sobre a livre expressão de identidades e o ativismo, enquanto discursos de ódio circulam com menos barreiras. Disponível gratuitamente, o livro, lançado em maio, também mostra como essas tecnologias podem perpetuar preconceitos e desigualdades já presentes nos dados utilizados em seu treinamento, além de apresentar iniciativas de resistência na América Latina e no Caribe.

“De um lado, as afetações provocadas pelas tecnologias digitais são moldadas pelos interesses das plataformas, e, de outro, as pessoas usuárias enfrentam e denunciam essas lógicas. Elas colocam em xeque os vieses algorítmicos e sua aplicação desigual a diferentes perfis de gênero e sexualidade, que são classificados em um espectro de maior ou menor aceitabilidade. Mais do que isso, essas usuárias utilizam as próprias plataformas para subverter as noções pré-concebidas de identidade, afirmando o direito de definir a si mesmas e seus corpos”, explicam as autoras no livro.

Além das práticas de exclusão e das ações que denunciam esses mecanismos, as autoras também chamam atenção para episódios de tratamento desigual em sistemas de moderação de conteúdo, frequentemente apresentados como erros ou falhas técnicas. Segundo as pesquisadoras, essas situações, no entanto, revelam uma seletividade programada, ancorada em uma discriminação estrutural.

O pesquisador Marcos Azevedo, do Departamento de Ciências Sociais da ENSP (DCS), será o debatedor da atividade. A pesquisadora Juliana Kabad, do Departamento de Administração e Planejamento em Saúde (Daps), fará a mediação. Durante a palestra, os participantes poderão comprar o livro Violência Algorítmica e Vidas LGBTQIAPN+: ensaios sobre tecnologia, poder e resistência na era digital e receber autógrafos das autoras.

Bruna Irineu é professora do Departamento de Serviço Social e dos Programas de Pós-Graduação em Política Social e em Saúde Coletiva da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), além de pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e líder do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre as Relações de Gênero (Nuepom). É também autora do livro ‘Nas tramas das políticas públicas LGBT: um estudo crítico da experiência brasileira (2003–2015) (EdUFMT, 2020)’ e coautora de ‘Diversidade sexual e de gênero e Marxismo (Cortez, 2024)’, obra finalista do Prêmio Jabuti Acadêmico 2025.

Já Larissa Pelúcio é antropóloga e professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), onde atua também como assessora da Coordenadoria de Ações Afirmativas, Diversidade e Equidade. Livre-docente em Estudos de gênero, sexualidade e teorias feministas, é autora de ‘Abjeção e desejo’ e ‘Amor em tempos de aplicativos’.

As pesquisadoras também são co-líderes do Observatório LGBTI+ de enfrentamento à violência algorítmica e ao extrativismo de dados, iniciativa apoiada pelo CNPq.

Violência algorítmica

A violência algorítmica ocorre ou se intensifica por meio de sistemas computacionais automatizados, como algoritmos de redes sociais, ferramentas de inteligência artificial e sistemas de vigilância. Entre os exemplos estão mecanismos de moderação que restringem ou removem conteúdos, sistemas de recomendação que interferem em sua visibilidade e ferramentas automatizadas que reproduzem preconceitos presentes nos dados utilizados em seu treinamento. Segundo especialistas, essas práticas podem ampliar formas de exclusão, silenciamento e discriminação já existentes.