O período eleitoral deveria servir para colocar holofotes nos temas que afetam diretamente o cotidiano da população. Nenhum outro momento da vida democrática concentra tanta atenção da sociedade sobre seus problemas e as possibilidades de enfrentá-los. Nas eleições de 2026, entretanto, é alarmante o grau de descolamento do debate público das reais necessidades dos brasileiros. A presença residual de discussões sobre os avanços conquistados e os atuais desafios do Sistema Único de Saúde (SUS) é exemplar deste quadro.
Segundo o Datafolha, desde 2008 a saúde ocupa com frequência o topo do ranking das maiores preocupações dos eleitores. Em pesquisa divulgada em junho deste ano pelo instituto, a saúde foi o problema mais citado, seguido por violência e depois economia.
Durante a pandemia da Covid-19, em um dos momentos mais dramáticos da nossa história recente, o SUS foi reverenciado por manter-se firme como instrumento de Estado, não de governo, e reconhecido como o principal pilar de resposta do Brasil. De acordo com o Ibope Inteligência, entre julho de 2019 e setembro de 2020, o SUS cresceu onze pontos no Índice de Confiança Social (ICS), registrando o maior crescimento entre todas as instituições do país.
Diante de tamanha relevância social, não é razoável a baixíssima atenção dispensada às propostas das mais diversas candidaturas para o maior sistema de saúde pública do mundo durante o período eleitoral. E aqui a responsabilidade deve ser dividida por toda sociedade, bem como a reconstrução de canais de diálogo que coloquem a saúde como prioridade e eixo estratégico, não como um tema setorial ou periférico.
Foi com este intuito que a Fiocruz publicou, em 24 de agosto, uma carta sugerindo sete compromissos para colocar a saúde no centro do futuro do Brasil: (1) Fortalecer o SUS; (2) Valorizar quem trabalha na saúde; (3) Produzir mais ciência, vacinas, medicamentos e tecnologias no Brasil; (4) Reduzir desigualdades e proteger quem mais precisa; (5) Preparar o país para crise climática e novas emergências em saúde ou pandemias; (6) Fortalecer a confiança pública, enfrentar a desinformação e ampliar o diálogo entre ciência e sociedade; e (7) Defender o desenvolvimento sustentável e a cooperação internacional solidária.
Os compromissos são detalhados em 37 propostas, como elevar os investimentos públicos em saúde para 7% do PIB; melhorar as condições de trabalho, carreira, salário e formação dos trabalhadores do SUS; e priorizar políticas públicas voltadas aos territórios e às populações mais expostos aos impactos climáticos.
É passada a hora de resgatarmos o debate público para uma discussão sobre projeto de país e fortalecimento da democracia. A saúde pública oferece um caminho para a construção de um Brasil mais preparado para proteger vidas, reduzir desigualdades e construir um futuro com mais segurança e dignidade. As escolhas realizadas no presente produzirão efeitos duradouros sobre as condições de vida da população. Democracia é SUS!